segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Mais

Mais relações profundas
Por favor
Superem a risada alienada
O choro pisado que não escorre
Só esconde ou já não tem o que mostrar
Mais relações profundas
Menos drogas baratas
Conversas caladas
Corações sem alma
O que não se permite dizer
Ou não desenvolveu nada
Para transformar em novas palavras
Ou não tem segurança que se valha
Mais relações profundas
Mais
Mais verdade
Mais sinceridade
Então
Troca, confia, sorria
Não que deixe este pedido
Seja perdido
Ou se torne esquecido

Orgulho trans

Bate no peito e grita
O peito também se constrói
A fortaleza não ignora o choro
Mas levanta pra buscar o novo
Parecia ser pra se completar
Encontrar-se em si
Mas não me basto em mim
Há um mundo afora pronto a explodir
Eu compraria as flores eu mesma
Para dizer que me fiz assim
Ousar ser sem deixar de sonhar
Escolhi não ser metade
Construí em mim o que fui capaz
Luta diária
Menos uma Laura
Ou seria mais uma Laura?
Nenhuma trans a menos
Ou pra nenhuma trans amais?
Viver
Plenamente
A busca que não se desfaz
Corre dentro de mim
Mais que Hormônios e sonhos
Viver plenamente
Com orgulho da luta
Da vida
Carregando em mim
Cada uma trans vitima
Cada camarada amiga
Cada verso que descobre a escrita
E grita
A travesti também quer fazer poesia

Aos meus amigos poetas

Ao meus amigos poetas
Agradeço os versos
Que trazem conforto
Conhecê-los na alma
No canto, no choro

Aos meus amigos poetas
Me entrego aos poucos
Parte de quem fui e sou
Um pedaço de meu agouro

Aos meus amigos poetas
Dedico meu tempo
Leio-os e me multiplico
Dedico meu intimo
Me transformo pra além de mim
Sou parte, enfim
De um coletivo assim
Aquece a alma por não estar sozin

Aos
Meus
Amigos
Aos
Poetas
Aos poetas-amigos
Compartilho o mundo
A rima
A poesia
Ou seja,
Tudo que fiz de vida

Pro mundo

Sou invisível
Ele negado
Um par desigual
Ainda assim combinado

K.

Sonhei contigo
Doce delírio
Abraçou me sem medo
Aliviava o desespero

Recobro a consciência
Lucidez!
Pra solidão virar poema
Busco-te outra vez

Agarro teu sorriso
Desmancha rápido
Ilusão inconfortável
Querer ser outra pra ser amável

O coração grita
Amasso poema, queimo a rima
Do anseio do abraço
Só sobrou a poesia

Se te encontro
Falta intimidade pra dizer
Queria dar um passo
Mas estou sempre pra trás do que prometi ser

A risada, a gargalhada
Você me encanta!
Mas uma verdade de repente
Revela a ilusão evidente

Sente
Muito
Mas não ama
Sente
muito
Mas não

Sonhei contigo, mas já não sonho mais
Amargo é gosto que me traz
A volta do desespero
Por um abraço que causa tanto medo

Madrugada

Miséria é a palavra
Capitalismo miserável
Organizou-se desumanizando
Fortalecendo o patriarcado

Solidão da mulher trans
Solidão da mulher negra
Vivemos pela metade
Queremos a vida plena

A alma chora
E os olhos ainda mais
Mostram o vazio engasgado
Que não se esconde mais

A poesia deu um golpe inesperado
Colocou as claras nosso sentimento calado
Grito! Por isso me grito
A nossa sobrevivência não se reduz a isso

A cada dia uma nova certeza
A miséria do possível já não satisfaz
A agonia que estoura busca transformar
A solidão fortalece, mas não se desfaz

Faltas de Polisipo I

Repito que estou louca
Tentando me convencer
Histeria feminina
Ideologia pra nos submeter

"Choro sem sentido"
Reproduz o discurso do inimigo
Ignorar o cotidiano de oprimido
Esquecer-se de si, é o maior perigo

Pilulas de "transformação"
Não transformam o mundo
Apenas minha percepção
Cada dia mais miséria atinge meu coração

A batalha no meu corpo cotidiana
Se venço o capitalismo ou se sou vencida
A vida e a morte: tão parecidas
Ambas não apontam perspectivas

Se me rendo, os fortaleço
Ainda me resta ódio
Não me esqueço
Mais incomodo quando me enfrento

A vida roubada
O luto negado
Todo o dia o prazo aperta
35 anos à minha espera
Aceito, a morte é certa
Mas então o que me resta?
Me ergo
Me levanto
Sou primavera