segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

Mulher enough

Espero nunca ser suficiente
Pra não me tornar um desperdício
Se sou mulher
Que seja transbordando meu ser

Não há elogio em meu gênero
Mas sim uma identidade
Não me inclua como cis
Nesta sociedade hetero-policial

Na cis-heteronormatividade
Pessoas como eu estão fora da realidade
Quem nos gosta é deprevado
Que loucura achar que você
Teria tamanha coragem
De colocar-se junto a mim
Em público
Aguardando o meu chamado

Espero nunca me confundir de novo
Com outro corpo
Que não me entende e não se importa
Há muita crise
Dentro e fora
Mas não me beije outra vez
Porque não sou
Suficientemente
Menos do que sempre fui

domingo, 10 de janeiro de 2016

Senão o amor, o mais próximo disso

Só mais um instante
Faça um desejo para este orgasmo
Que este novo momento
Dure mais que o durante
Transforme algo

Quando o desejo
Sobrevive
Ao instante
E não dissolve o dissonante
Não resolve
Só confunde

Incontrolável
Insuportável
Instável
Para abrir-se assim
Para permitir-se
Tornou se pra ela
Que era poesia
Algo tão forte que
Sobreviveu
Mesmo sem par

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

Cão

Oh menino
É mais fácil te tirar as calças
Do que palavras
Como um cão que morde
E não late
Mas deixa marca
Não sei se pra mostrar que é teu
Ou fez e nem percebeu
Talvez fosse então a companhia
Que pôde ser

Mistura

Misturar-se
Era tudo novo
Colorido em cada sorriso
Pouco a pouco
Fui me diluindo
Em cada gota
Um novo sentido
Meu corpo fundido
Ora queria teu abraço
Ou se sentia ferido

Você dentro de mim
Encaixava
Completava
Anesteciava o peso de ser

Você entrando em mim
Pelas mãos
Pela língua
Ou pelo pau
Parecia justificar o que tenho me tornado

Foi então assim
Misturou
Olha pro meu corpo e diz
Você que me vê por inteira
O que sou?

Haja trabalho agora
Para separar
Com quem ficam as  palavras
E com quem a poesia?
Nunca dita

Sombrancelhas

Sentia em dobro
Por dois
Substituía artificialmente
Seu silêncio
Por poesia
Incompreensível
Quis deixar de ser
Para poder te acompanhar
Mesmo assim, não sentiu falta
Aí
Como
Dói
Cair
Só

domingo, 3 de janeiro de 2016

Vida então

A vida é tão breve
Que dira de nós
Você é felicidade
Mas ainda existe o amanhã
Para continuar
É preciso me parar
Enfim
Chegamos aqui

quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Capitalismo: a arte de transformar migalha em sobrevivência

Você não faz ideia como meu corpo se sente. E não te importa, apesar de ouvir vez ou outra quando um impulso de coragem e desespero me faz te procurar. Compartilhei cada segundo e cada pedaço do meu corpo em transformação, me fiz confundida com você, foi de propósito, mas perdi o rumo. Capitalismo domina quando a gente se distrai, faz parecer que é amor é pra ser correspondido, quando na verdade só faz aumentar a angústia de estar tão só. Você me encanta e só poderia deixar de ser o que é pra mim, se eu decidisse te parar. A vida se impôs, e eu consciente do fim, deixei. Por cada fresta, sugavam-se os momentos e sensações que guardei de ti, pra me fazer companhia.

Meu coração (me) bate e (me) tortura, me aflinge a bosta de relação que construímos que tanto faz minha presença na sua vida. Drama! Cada segundo uma eternidade de sofrimento. Você parece que vai durar pra sempre. É quase meus comprimidos diários, mas é mais próximo do cigarro, que parei. É uma relação que não quero ter, ainda que nunca deixei de gostar e querer por perto. Fumem ao meu lado, imploro as amigas íntimas. A fumaça não me tortura, alivia. Senão posso ser sujeito disso, que esteja entre as que são. Como você, que prefiro te ver ao não te ver, prefiro ficar com você do que não ficar, mas sobretudo prefiro me sentir bem, do que viver de poesia.

O duro é quando a relação passa antes [da poesia,]
será que comprei papel demais
ou rendeu a tinta?

Teu corpo ainda reflete
a melhor rima
que humaniza
a cada toque que atingia.

Escrevi então:

"(...) durante todo esse tempo sempre tive o cuidado pra não ser escrota, e não causar. Fiquei esperando seu email, mas agora vejo que é só mais uma esperança que vou alimentando, não faz diferença, no fim. Não é verdade que não me importa nada depois, geralmente quando estou com você penso isso, porque estou com você. Não quero seguir alimentando mais isso e ir e voltar mil vezes nessas discussões que sinceramente não acredito que possam ajudar, você me vê transparente o tempo todo enquanto eu sempre lido com o silêncio como um suspiro de que ainda há chances. Mas chances de que? É isso. A relação que temos é nua e crua. E eu tenho que reconhecer meus limites que não permite hoje ter algo assim, quando sinto tantas coisas amais. Sei que vire e mexe escrevo coisas meio do nada, sou assim mesmo, e fazer o que. Acho que quero me afastar de você, dessa vez de forma consciente e com objetivo de realmente parar de gostar de você, do seu sorriso, do jeito que te olho. Tinha combinado de ir no Dube com o JR e ele com você, e acordei então vendo a contradição que isso tem. Enquanto to aqui fritando em tudo isso, são mil encanações, tudo segue normal do lado daí. Indiferente. E não sei, não quero virar o ano com tantas incertezas, se vou te ver hoje e se vamos ficar no junto e se no fim das contas o melhor que pode acontecer é outra noite especial que se desfaz pela manhã e logo somos estranhos de novo. Decidi não ir, e acho que é a única forma de ser consequente comigo mesma. Vi".

Faça o que achar ser melhor pra você! - Encerrou a poesia.

Não to perdendo nada (porque nunca tive nada), mas era bom pra caralho. E agora, só dói.

O melhor
então
é deixa-lo longe
do meu coração.

Acalma. Viram os dias, as noites, os meses e os anos. O tempo distância e aproxima, como sempre tira o que mais nos custa. Saudações.