segunda-feira, 6 de maio de 2013

Declaração da corrente PROFESSORES PELA BASE (LER-QI e Independentes) contra a homofobia nas escolas.

6 de Maio de 2013

Meu nome é Virginia Guitzel, sou uma travesti estudante do segundo ano de Ciências Sociais, militante da LER-QI e construo a corrente Professores pela Base. No dia 15 de fevereiro fui junto a um representante do sindicado da APEOESP de Santo André, dirigido pela Oposição Alternativa para me cadastrar como professora eventual na escola E.E. Nadir Lessa em Santo André – São Paulo. Como já esperávamos, houve uma grande resistência por parte da diretora em me aceitar como uma professora eventual. Foi preciso entrar em contato com a diretoria de ensino, ameaçar criar um boletim de ocorrência contra a diretora por discriminação e muita luta política para garantir a minha inscrição como professora eventual. Ainda que garantir minha inscrição não signifique ter qualquer garantia de que serei convocada na ausência de professores.

Infelizmente, parto da realidade onde muitas de nós, travestis, não conseguimos concluir a escola pela homofobia que sofremos diariamente. A maioria de nós somos submetidas a prostituição como única forma de trabalho que nos é oferecida. Parto da minha vivencia de ser tratada cotidianamente com muitos olhares, estranhamento, moralismo e ódio. Não há toa, não me iludo que garantir minha inscrição como professora eventual não responde minimante as minhas necessidades de sobrevivência. 1- porque a precarização dos professores, especialmente a nós – categoria O -, nos deixa sem qualquer estabilidade de emprego. 2- porque as escolas foram criadas e ainda servem como reprodutoras dos valores burgueses, o que significa, reafirmar a divisão no seio da classe trabalhadora, educando seus filhos a não serem solidários com as mulheres, os negros e os LGTTBIs para que não nos enxerguemos como parte da mesma classe. 3- Após o ataque aos professores da categoria O que já tinham 2 anos com o mesmo contrato, deixando estes professores 200 dias letivos sem poder entrar em salas de aula, fica evidente que ainda que não seja um segredo para ninguém que há menos professores do que o Estado necessita, é preferível para o governo do Estado de São Paulo e para as diretorias de ensino manter aulas vagas à manter vinculo com estes trabalhadores ou no meu caso, permitir que uma travesti lecione e 4- Além de não termos direito a convenio médico, somos impedidos de entrar em greve, porque não podemos faltar, assim impedindo nosso direito de nos expressarmos politicamente e de lutarmos contra os projetos do governo para a Educação púbica.

Eu como militante da corrente Professores pela base luto contra a precarização do trabalho e pelo fim da divisão em categorias dos trabalhadores. Luto contra as opressões de forma principista, para libertar a humanidade do capitalismo que se utiliza da opressão para intensificar ainda mais sua exploração. Me solidarizo com os 72 alunos e trabalhadores da USP que lutaram desde 2009 pelo fim do convênio PM-USP e por uma educação pública á serviço dos trabalhadores e hoje são acusados pelo ministério público de formação de quadrilha, com exigência de serem presos por no mínimo 8 anos. Me solidarizo também com os trabalhadores da GM de São José dos Campos que sofreram uma grande derrota em acordos vergonhosos que entregam empregos, direitos e salários. Me solidarizo com toda a juventude que hoje se levanta em todo o mundo contra os efeitos da crise capitalista que demonstram como esse modelo falido de organização social não tem consonância com nossas necessidades e quereres.

Os avanços legais sobre a questão LGTTBI em nosso país não resolvem de forma alguma os obstáculos colocados para nós. Primeiro, porque entre a lei e a vida real existe uma diferença gigantesca. Segundo, porque nem o mínimo votado é cumprido. O decreto Nº 55.839, de 18 de Maio de 2010, deveria já ter sido implementado entre 2010-2011 a implementação de um “Plano Estadual de Enfrentamento à Homofobia e Promoção da Cidadania LGBT e dá providencias correlatas”. O que significaria desde o governo do Estado de São Paulo: assegurar o tratamento pelo pré-nome social de travestis e transexuais nos órgãos públicos; criação de postos de atendimento a casos de discriminação por homofobia; Promover campanhas institucionais contra a homofobia; realizar cursos de capacitação em direitos humanos e diversidade sexual para gestores públicos, procuradores e servidores da Fundação Casa de secretarias do Governo do Estado de São Paulo; Atividades comemorativas como “Orgulho Gay” e “Dia da visibilidade LGBT” e adotar ações de enfrentamento ao trafico de travestis e transexuais para exploração sexual. Todas essas demandas que o documento no traz, não nos ilude com a democracia burguesa e suas falsas intenções de “democracia sexual”. Que além de hoje não se implementarem, caso sejam, serão por tempo determinado, até a crise econômica se aprofundar e estes direitos não poderem ser mais ser sustentados em detrimento do lucro das grandes empresas. 

Por fim, sei que encontrarei muitas dificuldades para conseguir o direito mínimo de um trabalho. Que ainda sou obrigada, como outras tantas, a ir trabalhar fantasiada de menino para garantir minha sobrevivência longe da prostituição. Ainda que digam que será difícil lidar com os alunos, até chegar neles, muitas lutas terão de ser dadas. Nós, Professores pela base, nos colocamos na linha de frente contra a discriminação nas escolas, nas universidades, nos postos de trabalho, nos lugares de lazer. 
Entendemos que para que as travestis possam trabalhar fora da prostituição, é preciso questionarmos não só o sistema de educação, mas levar esse questionamento a outro nível, nos lembrando do que foi o veto do Kit Gay de Dilma; o silêncio em relação ao aborto e os ataques que sofrem os lutadores em todo o Brasil; a clara perseguição política e tentativa de criminalizar os movimentos sociais, como a exigência de prisão para os trabalhadores e estudantes da USP; Todas essas lutas também são minhas: contra o governo e a burguesia que são os principais responsáveis pela marginalização das travestis e pela perpetuação da homofobia como parte do controle dos corpos e da imposição da miséria sexual á humanidade.
- Contra a homofobia que expulsa os LGTTBIs do mercado de trabalho, deixando-os nos trabalhos mais precários ou a prostituição!
- Por um amplo debate dentro das escolas para combater a homofobia!
- Por uma retratação da diretora da E.E Nadir Lessa.
- Pela efetivação do decreto 55.839!
- Pela imediata efetivação de todos os OFAs com todos os direitos;
- Pelo fim da quarentena/duzentena dos professores categoria O;
- Somos todos professores! Igual trabalho, igual salário e iguais direitos!

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Os operários diziam: ‘ela veio nos apoiar’

"Me chamo Virginia Guitzel, sou uma militante travesti da Juventude Às Ruas e da LER-QI e participei ativamente do processo de luta dos trabalhadores da Façon no Metrô de São Paulo. Durante os dias de ocupação do canteiro da empresa, pude conhecer diversos trabalhadores, como o Gilvanildo, um dos operários que conformou a comissão de trabalhadores e foi linha de frente de toda essa luta. Poder participar da luta desses companheiros me possibilitou ver que em momentos de luta de classes, a classe operária reconhece seus irmãos de classe pela solidariedade que recebem. Enxergam a necessidade de romper com preconceitos burgueses que não possuem bases materiais para os trabalhadores, mas servem para dividirem suas fileiras seja entre efetivos e terceirizados ou baseados no machismo, homofobia e racismo. Os trabalhadores da Façon, neste pequeno exemplo de luta se fortaleceram, porque confiaram em suas próprias forças para lutarem. Se fortaleceram, porque encontraram a necessidade de se unificar com os setores que se dispuseram não só a apoiar, mas participar ativamente da luta pelos seus direitos. Apesar de todo o discurso da burguesia, que muitas vezes a própria esquerda se adapta, de que a classe operária é atrasada e portanto importante agente da opressão homofóbica, pude ver, num pequeno processo de luta como este, a força das ideias revolucionárias da classe operária em aliança com a juventude na luta contra a exploração e opressão. Eu, como militante travesti, participando ativamente dos piquetes em solidariedade aos operários da Façon tive como resposta destes trabalhadores não apenas a reivindicação de minha presença mas a minha ampla defesa diante de piadas homofóbicas. Os operários diziam ‘Ela veio nos apoiar’ em resposta a qualquer atitude preconceituosa. Esta classe, representada pelos operários em luta da Façon mostraram a possibilidade de que aquele espaço de luta se tornasse um espaço muito mais acolhedor, onde eu podia ser eu mesma, uma travesti que defendia os trabalhadores. Um espaço mais acolhedor do que dentro de muitas universidades e demais espaços de "excelência" onde sou acolhida com hipocrisia e extremo conservadorismo. Sem diminuir a grande batalha a ser dada no centro da classe operária contra todas as formas de opressão apoiada em séculos de hegemonia da ideologia burguesa para nos dividir e nos separar, a experiência da Façon é um grande exemplo deste combate. Torna-se obvio que é ao lado destes que continuo minha luta pela emancipação da humanidade, em todos os níveis. São meus irmãos de classe contra a exploração capitalista e também contra a dominação sobre nossos corpos e mentes.”

domingo, 23 de dezembro de 2012

Do lado de fora

23 de Dezembro de 2012


"Preparando a morte" se chamaria a obra se descrevesse esse relato sincero. Me dispus a fumar. E refleti sobre minha segurança, tenho entrado em crise com isso. Sou muito adaptada, me desligo completamente do perigo de ser uma travesti, ignoro completamente minha opressão real (de ataques). Então, fui para cozinha (para quê, não me recordo) e ouvi a chuva. Já no corredor comecei a pensar, chorar, me sentir só. A tristeza ia crescendo, como uma bala que ia me perfurando... Estava eu, sozinha, com as portas abertas (sem a chave para trancá-las). Continuei a pensar sobre sentia falta de Guilherme. Como me sentia cada dia mais normativa, mais heterossexualizada, mais cisgêneralizada. E como a solidão já era tão intima, tão minha, tão conhecida.
A chuva continuava a soar tão bela quanto o que viria depois. Me aproximei para sentir a primeira gota. Decidi que tomaria essa chuva pelada. Então, me despi. Fiquei nua e caminhei até aquelas gotas que caiam num ritmo que me excitava.

"Como era bom estar pelada", pensei.
Estar bem acompanhada também.

Sentia todo meu corpo, a minha sintônia. Sem vergonha, me tocava. As gotas eram como gozo (risos). E eu ria boba. Minhas mãos me acariciavam. Estava completamente a vontade. O peito de tecido ainda não me satisfazia. Mas tocá-lo, me dava a possibilidade de imaginar como será quando fosse parte do meu corpo. Meu corpo era capaz de repetir Claudia Wonder: Sou mulher, mas também sou macho. Meu corpo pode ser livre, sou completamente dona dele, completamente responsável por suas ações.
E minhas mãos obdeciam com carinhos e apertos. Me masturbava comigo mesma.
Poderia sim ter bastante de egocentrismo nisso, se não fosse pelo gozo da vitória de estar bem sendo você mesma, o gozo de não ser normativa ou conservadora em se tocar.

Meu corpo nu na chuva, me dava a liberdade que pouco tinha com alguma pessoa. Intimidade. Isso me falta com muitas pessoas. Algumas, as palavras vem fácil, me apresento, me deixo nua sem vergonha, sem constrangimento. As mãos que provavam os seios  e o pênis ao mesmo tempo, tinham um ritmo que contribuía para o movimento que todo o resto do corpo fazia, acompanhava os suspiros.

Depois, rispidamente parei. Voltei ao coberto, pensei de como eu, sozinha, sem as chaves da casa para trancá-la, pelada era quase um veado, do pior sentido do termo, um animal de caça. Um animal que sua vida é usada como diversão. Sua morte é divertida.
 “Pois é, Virginia, você pode morrer. Pois é, você arrisca todo dia sua vida, sem nem falar que é comunista. Sem nem estar discutindo com algum trabalhador, sem nem se aproximar do objetivo estratégico que libertará todos nós  dessa vida de miséria e opressão”.

O auge do gozo quase sempre se aproxima do auge de dormir. Polisipo, do grego, significa “Pausa na Dor”, era como o suicídio da sra Woolf ou seus livros. O alivio que vinha depois de uma crescente e desesperadora angustia. Podia sentir-me penetrando, eu gemia cada vez mais alto, em busca do gozo, do alivio, dos segundos que são o silêncio calmo e delicioso.

Me recompus, vesti apenas a calcinha e comecei a escrever o que acabara de se passar. A longa experiência de diversas sensações só poderia ter me levado a isso: a poesia.

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Monogamia

11 de Julho de 2012

Não partindo dos avanços e da importância - indiscutivel - de Kolontai, mas analisando um trecho de seu livro, 'A nova muher e a moral sexual', onde repito, traz historicamente diversas analises importantíssimas para o feminismo que de forma alguma quero contrapor agora. Lê-se, página 40 da edição da Expressão Popular:

"Em primeiro lugar, a sociedade terá que se acostumar a reconhecer todas as formas de união entre os sexos, mesmo que estas se apresentem diante dela com contornos novos e desconhecidos. Mas sempre que se correspondam a duas condições: que não ofereçam perigo para a espécie e que o seu fator determinante não seja o jugo econômico. O ideal continuará sendo a união monogâmica baseada num amor verdadeiro, porém sem as características de invariabilidade e indissolubilidade. A mudança será tanto mais evitável quanto mais diversa for a psicologia do homem. O concubinato ou monogamia sucessiva será a forma fundamental do matrimônio. Porém, ao lado desta relação sexual existe toda uma série de diversos aspectos de uniões amorosas sempre dentro dos limites da amizade erótica".

A questão de gênero e a discussão homoafetiva, mais uma vez é abandonada pelos personagens revolucionários. Nem Trotsky, nem Kolontai, e eu pelo menos não conheço nenhum bolchevique que discusse. É importante caracterizar, mas também lembrarmos que a organização LGBTT, é pelo menos hoje encarada, com Stone Wall em 1969, isto é, 42 anos após a tomada do poder na Russia. Mesmo assim, quando os bolcheviques tomaram o poder, foi instalado leis que garantissem a igualdade entre as relações homoafetivas perante a relação heterossexual.

O que de fato quero me centrar, com mais precisão, é a ideia da monogamia como continuar sendo o "ideal". Vejo, que Kolontai, vê a amizade-erótica ou amor-jogo como uma forma de aprendizagem do amor, onde você consegue aprender a se desvinciliar do ciúmes, do sentimento de posse, das relações utilitaristas, etc, em contra ponto a isso, traz também a visão evolutiva que dessas amizades-eróticas, uma delas evoluirá para um "amor verdadeiro", isso é, uma relação monogamica - distinta da monogamia patriarcal burguesa, pilar da opressão da mulher.

Se por um lado, é progressista, proque acredito que a monogamia, por si só, não é reacionária, no sentido de em si, precisar ser abolida definitivamente. Encaro de forma completamente oposto. Encaro que a monogamia, é parte de um periodo, onde as pessoas escolhem pirar uma na outra, exclusivamente. É bastante ligado ao descobrimento do parceiro, a excitação dos corpos, a paixão no seu nivel mais intenso, entre outras coisas. Encaro-a até mesmo como positiva em diversos aspectos. No entanto, vejo a sua superação, no amor-camaradagem, nas amizades-eróticas, nas relações mais profundas sem diferenciação e sem a presença da monogamia, que de forma perpetua - apesar de ainda ser uma escolha, e eu mesma precisar falar por mim apenas - traz uma exclusão do casal perante a sociedade. Por mais que estes consigam se manter como individuos independentes, tendem a compartilhar e desenvolver seus valores mais intimos e de mais importância para sua vida, dentro dessa bolha. Que por um periodo, eu enxergo como positivo, mas a longo prazo, vejo limites bastante concretos.

Descendo um pouco mais a terra, um casal monogamico regulariza sua relação sexual, mas não só, também regulariza suas emoções e determina o que é autorizado fazer (já que sentir, não é algo racionalizado). A dominação em primeiro do corpo, mas quando esse limite é ultrapassado, demonstra-se ser uma dominação mais profunda, a dominação do pensamento, dos sentimentos, da subjetividade, das vontades, etc.

Não me satisfaz a monogamia, apesar dela trazer imensa segurança e conforto. Não me satisfaz, porque vejo o limite em negar o todo e priorizar uma relação, que está ligada ainda com uma forma de dominação e uma forma de "abrir mão" da liberdade.
Se é certo que a liberdade nos dá o direito de abrir mão dela também, mantenho minha postura em reivindicar o direito a monogamia, mas politicamente e pessoalmente defendo a sua superação.

O que retomo na Kolontai,e que antes me parecia apenas um limite, hoje compreendo que é também uma posição política. Não só defendida por ela, mas também por diversas pessoas. O que se pra mim, é bastante atrasado, tem a lógica inversa para estes. Onde o amor-camaradagem e a amizade-erótica não são imorais, problemáticas, reacionárias, mas manter-se nelas, seria não avança para um amor verdadeiro.

Não vou entrar num debate - mas o cito para evitar futuros oportunismos ou mesmo desvio da discussão - sobre como as relações abertas são ou não um progresso. Sobre isso digo apenas, que as relações, de nada avançam, se a abertura é do corpo. Abrir uma relação monogamica, precisa significar, abrir individualmente os dois que compõem essa relação para uma nova forma de lidar com o mundo externo. Continuarem mantendo uma relação próxima e que se fortalece cada dia mais, mas libertando-se do "pecado da traição", que só existe, na monogamia. Mas as relações abertas, precisam ir para além disso, para além da liberdade em se relacionar com outras pessoas. Precisa ser a abertura da mente para outras perspectivas. Tirar o amor (romântico) do primeiro plano, como essêncial da vida.

Como diria nossa querida revolucionária, Kolontai:

"Esta educação é uma causa dos corações destroçados, das mulheres desesperadas, que se afogam na primeira tempestade. É preciso que se abram para a mulher, as múltiplas portas da vida. É preciso endurecer o seu coração e forjar a sua vontade. Já é hora de ensinar à mulher a não considerar o amor como a única base de sua vida e sim como uma etapa, como um meio de revelar o seu verdadeiro eu. É necessário que a mulher aprenda a sair dos conflitos do amor, não com as asas quebradas e sim como saem os homens, com a alma fortalecida. É necessário que a mulher aceite o lema de Goethe: “Saber desprezar o passado no momento em que se quer e receber a vida como se acabasse de nascer”. Afortunadamente, já se distinguem os novos tipos femininos, as mulheres celibatárias, para as quais os tesouros que a vida pode não se limitam ao amor".

Para longe das conversas, dos cafés e dos abrigos.

11 de Julho de 2012

A maioria das relações hoje são estabelecidas pelo formato montado e arruinado da classe dominante. As relações são reproduzidas através do modelo padrão inquestionável. Tanto amigo quanto namorado são equivalentes as outras termologias de parentesco: mãe, pai, tio, tia, sobrinho, sobrinha. Todos reguladores da nossa sexualidade. O que se tem hoje ainda são os modelos de família e de relações pequeno-burguesas que já conhecemos e vivenciamos desde nosso berço. Sabemos que não nos satisfazem, a medida que nossa consciência avança, exige mais de nós mesmos e de nossos camaradas. É parte de modos de vidas comunistas, superação das relações forjadas no capitalismo. É parte de superação do que têm sido a humanidade e seus valores. É parte de um total que construiremos a partir do fim da sociedade divida em classes, de opressões, de exploração.

Se por um lado, grande parte dos amigos que perdemos se vão em relações monogâmicas exclusivistas. Por razões óbvias, a monogamia combatedora da solidão e "seguradora da maior felicidade do maior amor verdadeiro e da vida compartilhada com a pessoa que mais te amará" requer a vida exclusivista, individualismo à dois. A bolha. As quatro paredes. Esta impede uma relação mais revolucionária, porque todas as suas demais relações são determinadas pela relação estabelecida com sua companheira ou seu companheiro.

Mas todas as relações monogamicas são assim? Individualistas à dois?
Em distintos niveis, sim.

Isso, eu afirmo, pela construção dessa relação monogamica. Porque é possivel que uma pessoa, por qualquer motivo do mundo, em uma determinada época, estabeleça relação sexual apenas com um companheiro. Agora, essa relação se constrói de "eu gosto só de você"? Se ela se construir de exclusismos, que para a burguesia (e somente na sua visão perturbada) a exclusividade é equivalente á amor verdadeiro, real, superior aos demais, então ela ingendará estes desvios, ainda que em niveis distintos.

A contraposição a monogamia, para superar os limites burgueses das relações, não pode ser a poligamia ou a poliandria. Não é uma questão quantitativa de pessoas que se estabelece relação sexual. Talvez fosse - sem encarar quantitativo em contra posição a qualitativo - em relações profundas. Tão pouco pode ser encarado como uma questão de forma, é exclusivamente uma questão de contéudo, que diferencia as relações revolucionárias das relações pequeno-burguesas degeneradas. A prioridade dada à quem divide e oferece prazer sexual é uma contradição que a monogamia não pode superar. É a contradição da sexualidade exclusivamente presa vida privada. É a capacidade de amar, de entregar-se, de gozar (tanto no sentido sexual quanto nos outros que nos realizam), de chorar, de dar e criar intimidade para dentro de um quarto, que depois se tornará um assunto velado. E se o sexo é feito, entre camaradas, sem uma relacionamento "tradicional" - isso é, de namoro - então deve ser esquecido. E se não puder ser esquecido, ao menos, silenciado.

Mas para analisarmos isso atualmente, peguemos como parametro o cinema, que Trotsky em Questões do Modo de Vida dizia ser uma das ferramentas mais revolucionárias que tinham sido criadas, pela sua facilidade de compreensão e grande capacidade de introzamento e divertimento. Atualmente, utilizado para expor a degenerada moral burguesa e sua realidade pouco conhecida, apesar de incentivada ao desejo de tê-la, pela classe trabalhadora. Se pegarmos os exemplos de filmes do diretor Woody Allen, onde Vick Cristina Barcelona, impacta uma juventude que é criada na visão única de relação a dois. Porém, o que é preciso se atentar é que estes filmes cumpre dois papeis importantíssimo. Em primeiro lugar, é preciso identificarmos a necessidade da burguesia em dialogar com os desejos e prazers bissexuais e por fora da relação monogamica - no caso ainda, de casamento formal, igreja e etc. A segunda é ainda mais determinante: o limite de aceitação para tais condutas.

A burguesia menos conservadora - aqui exclui-se entre estes, os fundamentalistas religiosos - expõe essas outras possibilidades de relação, com o objetivo de impor os limites. Pode. Mas só enquanto for juventude, depois é preciso crescer. E depois que crescer, é preciso achar alguém para dividir a vida eternamente. O que eu estabeleceria um paralelo, com bastante cautela, com minha crítica a Kolontai[1].

O individualismo de época que tanto na estratégia - como o autonomismo -, mas como para dentro das relações e o modo de vida precisa ser superado. Este, por si só, impõem valores anti-operário (com a divisão da classe trabalhadora) e um erro em pensar que é possivel viver isolado, não encarando o ser humano como um ser social. 
A realidade de hoje impõem o marxismo como método de análise se quisermos avançar nas transformações estruturais, isto é, o materialismo histórico e dialético é fundamental na busca por uma estratégia para vencer, capaz de derrotar a burguesia e seu regime de exploração. Porque somente assim, com o fim da desigualdade social e consequentemente a divisão de classes, que é possivel pensarmos no fim das relações utilitaristas e de posse.

É nesse momento que as relações individualistas acabam cumprindo um papel alienador. Quando a subjetividade voltada a vida privada, a vida dividida a dois, ganhe mais foco e atenção do que os acontecimentos internacionais que determinam o futuro de nossa classe (até mesmo, de continuarmos dividos em classe).

Hoje quando a juventude tem protagonizado os primeiros levantes, nos países imperialistas contra a crise, e nos países perifericos, contra os regimes, é importante ligar as questões mais intimas com a busca na história de lições e erros para não oferecer a burguesia a chance de despejar a crise sobre nossas costas e impor mais uma derrota ao proletariado. Tão somente pela traição das direções quanto por seus erros que abrem-se possibilidades para os grandes capitalistas fugirem do que os aguarda, nossa revolução.

Atenção, jovens.
Somos nós a caixa de ressonância que avisa a abertura de novos tempos. Somos nós, o prólogo que indica o despertar da classe trabalhadora após trinta anos de ideologia de fim da história, fim da classe operária e a ideia de capitalismo a de eterno.
Sejamos mais. Sejamos a aliança com a classe trabalhadora e seus fieis dirigentes que juntos colocaremos a burguesia no seu devido lugar: o passado. 
Para assim então libertarmo-nos das figuras libertárias de relacionamentos que de fundo são grandes  negócios para a burguesia. A mais libertária forma de se relacionar é, sem dúvidas, a forma capaz de permitir que o individuo se relacione constantemente consigo mesmo e com a natureza, a qual os seres humanos constrói.

As relações partem de uma outra perspectiva, que não se pode ter hoje, dentro do capitalismo, pois é uma forma de se relacionar com a vida distinta. Sem divisão de classes, sem opressão e sem termologias para regulamentarizar. Sem a ideia de sexo padrão, sem a concepção de relação de poder entre gêneros e mais importante, relações sem influencia econômica.

[1] É com muito cuidado com estabeleço essa similaridade, pois a Kolontai era uma revolucionária. Uma das mulheres mais importantes que a historia já teve que junto de outras lutadoras impulsionaram as primeiras teorias e regastes históricos sobre a sexualidade e a opressão da mulher. Mesmo assim, me esforço no combate à visão de que o amor-camaradagem (e para a burguesia, a época de "viver a vida enlouquecidamente" seja um estágio primário que tenha de ser superado. Não encaro a monogamia como sua superação, pelo contrário. Texto completo em: http://caminhodeovos.blogspot.com.br/2012/07/monogamia.html

segunda-feira, 9 de julho de 2012

Breves.

9 de Julho de 2012

Tempo para amar. 
É preciso lutar por relaçoes mais profundas. O amor exige tempo. As relações exigem uma outra educação, a classe operária e os revolucionários ainda amam pouco. Ainda vivem pouco. Ainda dizem pouco. O capitalismo nos fez e nos educou assim. Nos tirou a voz e o tempo para amar e ser amado.

Sem dúvida que sem a revolução socialista, será imposivel mudar as relações. Ou extinguir a homofobia, o racismo e o machismo. Mas ela tão pouco, sozinha, irá nos emancipar. O modo de vida têm que mudar, e precisa ser impulsionado por nós, em cada luta, em cada prática militante, em cada expressão. Desde já.
Porque é disso que nos fortaleceremos, é disso que nos moralizamos, é disso que nos torna mais coerente com o mundo e o futuro que nos pertence!


* 

Amor para muito além, amor que precisamos. 
A indiferença como parte do individualismo burguês, que pouco vê, pouco se tensiona a se preocupar, divide ainda mais a nossa classe. É pequeno burguês, mesquinho e de um tamanho desprezo, aqueles e aquelas que assumem como personalidade ou como estilo de vida, o deslexo, a falta de preocupação e consebe pra si a idéia de felicidade dentro da bolha monogamica. Não há emancipação no individualismo à dois. Também não há, no relacionamento aberto, porém não livre.

O amor ainda será muito mais do que mera relação economica. E muito além do que mera paixão destinada a posse e a repartição de vivências, conhecimento e particularidades ao companheiro a qual se tem relações sexuais.

*
Adiante.

Não confie em alguém que reduz a luta pela emancipação da humanidade, do amor-camaradagem sincero, por um novo modo de vida - comunista, por uma sexualidade mais libertária e mais satisfátoria, por uma luta "estética" e/ou "para conseguir transar".

Estes, companheiras, são - em maioria - os homens, mesmo que comunistas revolucionários, (mas infelizmente, algumas de nós também defenderam isso, por outros motivos evidentemente) que mantêm-se confortavelmente pisando sobre nossos corpos e nossa liberdade.

Não desistamos, companheiras. Nem demos a eles crédito ou voz. Porque seremos nós, e somente nós mesma, capazemos de nos emancipar.

domingo, 24 de junho de 2012

Relacionamento Aberto?

24 de Junho de 2012


Parece-me que essa discussão, quando parte daí, tem-se uma ideia pela metade. A discussão sobre abrir um relacionamento está vinculada a conceber uma nova forma de relação. Entre o casal? Talvez, seja uma nova forma de relação dos indivíduos com o mundo. Isto é, conseguir que os dois – considerando a relação aos pares, mais convencional nos dias de hoje – sejam indivíduos autônomos, não dependente um do outro, onde a relação que se constitui é livre das relações econômicas e principalmente, livre das pressões machistas, sexistas e/ou de chantagens emocionais. Livre também dessa relação determinar a vida de ambos.
                Parte na verdade de encararmos as nossas vidas como projetos individuais, não individualistas, onde busquemos relações que nos façam bem e avançar. Que possamos estabelecer uma relação de troca e não – somente – de apoio. É preciso libertar-se e libertar o outro do amor burguês entrelaçado ao ciúmes, a possessividade e ao controle corporal (e para a pequena burguesia que ao corpo não se prende, o mental).
Isso não é uma defesa de orgias, sexos sem sentimentos, relações utilitaristas e fetichistas, pelo contrário, é uma defesa por relações revolucionárias. Isto é, conceber e amadurecer a ideia de que deve-se existir uma relação de camaradagem, de companheirismo, de amizade principalmente.
A monogamia é hoje – por conta da burguesia – uma forma de se relacionar preenchida de contradições e pressões incessantes. É contrarrevolucionária por essência? Eu não acredito que seja. Mas a monogamia, aqui entende-se por uma relação onde ambos desejam ficar exclusivamente um com o outro, não sentem-se oprimidos pelas limitações ai colocadas, recusam os desejos sexuais e amorosos (isto é, as paixões, a capacidade e a experiência de novas paixões, novos romances e novos amores) para manter um relacionamento, que não necessariamente precisa de todas essas limitações.
Eu, Virginia, não defendo a monogamia. Porque para mim, a discussão não se estabelece entre relacionamento aberto ou monogâmico. Para mim, a discussão parte de quem somos. Sou travesti, sou lutadora, e meu corpo e meu sexo pertencem a mim. Nenhum companheiro meu, poderá se atrever a me reprimir. Também, obviamente o respeitarei e desde cedo apresentar-me-ei como sou. Sou livre. Sou minha. Não me contenta paixões exclusivas, não me satisfaz amores platônicos. Quando Trotsky dizia que vivemos em tempos de paixões sociais, eu concordo. Mas meu grande amor, sempre foi e será, a humanidade. Esta não é singular e não cabe em um só companheiro. E nem mesmo de sexo, é preciso para se ter essas relações. Mas é preciso liberdade. É preciso existir enquanto eu, enquanto Virginia. Me entende?

Abrir ou não abrir pouco importa.

O que somos? Qual amor que construímos? Qual amor que nos permitimos sentir? Quem são nossos companheiros? Que amor tem por nós? Viveremos em relações tão mínimas e tão nucleares por mais quanto tempo?
Eu não sou dona da razão, nem sei o que é melhor para cada um. Sei que as relações monogâmicas patriarcais burguesas e a família precisam ser extintas. Defendo, sou marxista-leninista-trotskysta. Agora, pra mim? Quero me apaixonar por todos aqueles, que se levantam e demonstram que humanos bonitos são os que lutam.