domingo, 23 de dezembro de 2012

Do lado de fora

23 de Dezembro de 2012


"Preparando a morte" se chamaria a obra se descrevesse esse relato sincero. Me dispus a fumar. E refleti sobre minha segurança, tenho entrado em crise com isso. Sou muito adaptada, me desligo completamente do perigo de ser uma travesti, ignoro completamente minha opressão real (de ataques). Então, fui para cozinha (para quê, não me recordo) e ouvi a chuva. Já no corredor comecei a pensar, chorar, me sentir só. A tristeza ia crescendo, como uma bala que ia me perfurando... Estava eu, sozinha, com as portas abertas (sem a chave para trancá-las). Continuei a pensar sobre sentia falta de Guilherme. Como me sentia cada dia mais normativa, mais heterossexualizada, mais cisgêneralizada. E como a solidão já era tão intima, tão minha, tão conhecida.
A chuva continuava a soar tão bela quanto o que viria depois. Me aproximei para sentir a primeira gota. Decidi que tomaria essa chuva pelada. Então, me despi. Fiquei nua e caminhei até aquelas gotas que caiam num ritmo que me excitava.

"Como era bom estar pelada", pensei.
Estar bem acompanhada também.

Sentia todo meu corpo, a minha sintônia. Sem vergonha, me tocava. As gotas eram como gozo (risos). E eu ria boba. Minhas mãos me acariciavam. Estava completamente a vontade. O peito de tecido ainda não me satisfazia. Mas tocá-lo, me dava a possibilidade de imaginar como será quando fosse parte do meu corpo. Meu corpo era capaz de repetir Claudia Wonder: Sou mulher, mas também sou macho. Meu corpo pode ser livre, sou completamente dona dele, completamente responsável por suas ações.
E minhas mãos obdeciam com carinhos e apertos. Me masturbava comigo mesma.
Poderia sim ter bastante de egocentrismo nisso, se não fosse pelo gozo da vitória de estar bem sendo você mesma, o gozo de não ser normativa ou conservadora em se tocar.

Meu corpo nu na chuva, me dava a liberdade que pouco tinha com alguma pessoa. Intimidade. Isso me falta com muitas pessoas. Algumas, as palavras vem fácil, me apresento, me deixo nua sem vergonha, sem constrangimento. As mãos que provavam os seios  e o pênis ao mesmo tempo, tinham um ritmo que contribuía para o movimento que todo o resto do corpo fazia, acompanhava os suspiros.

Depois, rispidamente parei. Voltei ao coberto, pensei de como eu, sozinha, sem as chaves da casa para trancá-la, pelada era quase um veado, do pior sentido do termo, um animal de caça. Um animal que sua vida é usada como diversão. Sua morte é divertida.
 “Pois é, Virginia, você pode morrer. Pois é, você arrisca todo dia sua vida, sem nem falar que é comunista. Sem nem estar discutindo com algum trabalhador, sem nem se aproximar do objetivo estratégico que libertará todos nós  dessa vida de miséria e opressão”.

O auge do gozo quase sempre se aproxima do auge de dormir. Polisipo, do grego, significa “Pausa na Dor”, era como o suicídio da sra Woolf ou seus livros. O alivio que vinha depois de uma crescente e desesperadora angustia. Podia sentir-me penetrando, eu gemia cada vez mais alto, em busca do gozo, do alivio, dos segundos que são o silêncio calmo e delicioso.

Me recompus, vesti apenas a calcinha e comecei a escrever o que acabara de se passar. A longa experiência de diversas sensações só poderia ter me levado a isso: a poesia.

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Monogamia

11 de Julho de 2012

Não partindo dos avanços e da importância - indiscutivel - de Kolontai, mas analisando um trecho de seu livro, 'A nova muher e a moral sexual', onde repito, traz historicamente diversas analises importantíssimas para o feminismo que de forma alguma quero contrapor agora. Lê-se, página 40 da edição da Expressão Popular:

"Em primeiro lugar, a sociedade terá que se acostumar a reconhecer todas as formas de união entre os sexos, mesmo que estas se apresentem diante dela com contornos novos e desconhecidos. Mas sempre que se correspondam a duas condições: que não ofereçam perigo para a espécie e que o seu fator determinante não seja o jugo econômico. O ideal continuará sendo a união monogâmica baseada num amor verdadeiro, porém sem as características de invariabilidade e indissolubilidade. A mudança será tanto mais evitável quanto mais diversa for a psicologia do homem. O concubinato ou monogamia sucessiva será a forma fundamental do matrimônio. Porém, ao lado desta relação sexual existe toda uma série de diversos aspectos de uniões amorosas sempre dentro dos limites da amizade erótica".

A questão de gênero e a discussão homoafetiva, mais uma vez é abandonada pelos personagens revolucionários. Nem Trotsky, nem Kolontai, e eu pelo menos não conheço nenhum bolchevique que discusse. É importante caracterizar, mas também lembrarmos que a organização LGBTT, é pelo menos hoje encarada, com Stone Wall em 1969, isto é, 42 anos após a tomada do poder na Russia. Mesmo assim, quando os bolcheviques tomaram o poder, foi instalado leis que garantissem a igualdade entre as relações homoafetivas perante a relação heterossexual.

O que de fato quero me centrar, com mais precisão, é a ideia da monogamia como continuar sendo o "ideal". Vejo, que Kolontai, vê a amizade-erótica ou amor-jogo como uma forma de aprendizagem do amor, onde você consegue aprender a se desvinciliar do ciúmes, do sentimento de posse, das relações utilitaristas, etc, em contra ponto a isso, traz também a visão evolutiva que dessas amizades-eróticas, uma delas evoluirá para um "amor verdadeiro", isso é, uma relação monogamica - distinta da monogamia patriarcal burguesa, pilar da opressão da mulher.

Se por um lado, é progressista, proque acredito que a monogamia, por si só, não é reacionária, no sentido de em si, precisar ser abolida definitivamente. Encaro de forma completamente oposto. Encaro que a monogamia, é parte de um periodo, onde as pessoas escolhem pirar uma na outra, exclusivamente. É bastante ligado ao descobrimento do parceiro, a excitação dos corpos, a paixão no seu nivel mais intenso, entre outras coisas. Encaro-a até mesmo como positiva em diversos aspectos. No entanto, vejo a sua superação, no amor-camaradagem, nas amizades-eróticas, nas relações mais profundas sem diferenciação e sem a presença da monogamia, que de forma perpetua - apesar de ainda ser uma escolha, e eu mesma precisar falar por mim apenas - traz uma exclusão do casal perante a sociedade. Por mais que estes consigam se manter como individuos independentes, tendem a compartilhar e desenvolver seus valores mais intimos e de mais importância para sua vida, dentro dessa bolha. Que por um periodo, eu enxergo como positivo, mas a longo prazo, vejo limites bastante concretos.

Descendo um pouco mais a terra, um casal monogamico regulariza sua relação sexual, mas não só, também regulariza suas emoções e determina o que é autorizado fazer (já que sentir, não é algo racionalizado). A dominação em primeiro do corpo, mas quando esse limite é ultrapassado, demonstra-se ser uma dominação mais profunda, a dominação do pensamento, dos sentimentos, da subjetividade, das vontades, etc.

Não me satisfaz a monogamia, apesar dela trazer imensa segurança e conforto. Não me satisfaz, porque vejo o limite em negar o todo e priorizar uma relação, que está ligada ainda com uma forma de dominação e uma forma de "abrir mão" da liberdade.
Se é certo que a liberdade nos dá o direito de abrir mão dela também, mantenho minha postura em reivindicar o direito a monogamia, mas politicamente e pessoalmente defendo a sua superação.

O que retomo na Kolontai,e que antes me parecia apenas um limite, hoje compreendo que é também uma posição política. Não só defendida por ela, mas também por diversas pessoas. O que se pra mim, é bastante atrasado, tem a lógica inversa para estes. Onde o amor-camaradagem e a amizade-erótica não são imorais, problemáticas, reacionárias, mas manter-se nelas, seria não avança para um amor verdadeiro.

Não vou entrar num debate - mas o cito para evitar futuros oportunismos ou mesmo desvio da discussão - sobre como as relações abertas são ou não um progresso. Sobre isso digo apenas, que as relações, de nada avançam, se a abertura é do corpo. Abrir uma relação monogamica, precisa significar, abrir individualmente os dois que compõem essa relação para uma nova forma de lidar com o mundo externo. Continuarem mantendo uma relação próxima e que se fortalece cada dia mais, mas libertando-se do "pecado da traição", que só existe, na monogamia. Mas as relações abertas, precisam ir para além disso, para além da liberdade em se relacionar com outras pessoas. Precisa ser a abertura da mente para outras perspectivas. Tirar o amor (romântico) do primeiro plano, como essêncial da vida.

Como diria nossa querida revolucionária, Kolontai:

"Esta educação é uma causa dos corações destroçados, das mulheres desesperadas, que se afogam na primeira tempestade. É preciso que se abram para a mulher, as múltiplas portas da vida. É preciso endurecer o seu coração e forjar a sua vontade. Já é hora de ensinar à mulher a não considerar o amor como a única base de sua vida e sim como uma etapa, como um meio de revelar o seu verdadeiro eu. É necessário que a mulher aprenda a sair dos conflitos do amor, não com as asas quebradas e sim como saem os homens, com a alma fortalecida. É necessário que a mulher aceite o lema de Goethe: “Saber desprezar o passado no momento em que se quer e receber a vida como se acabasse de nascer”. Afortunadamente, já se distinguem os novos tipos femininos, as mulheres celibatárias, para as quais os tesouros que a vida pode não se limitam ao amor".

Para longe das conversas, dos cafés e dos abrigos.

11 de Julho de 2012

A maioria das relações hoje são estabelecidas pelo formato montado e arruinado da classe dominante. As relações são reproduzidas através do modelo padrão inquestionável. Tanto amigo quanto namorado são equivalentes as outras termologias de parentesco: mãe, pai, tio, tia, sobrinho, sobrinha. Todos reguladores da nossa sexualidade. O que se tem hoje ainda são os modelos de família e de relações pequeno-burguesas que já conhecemos e vivenciamos desde nosso berço. Sabemos que não nos satisfazem, a medida que nossa consciência avança, exige mais de nós mesmos e de nossos camaradas. É parte de modos de vidas comunistas, superação das relações forjadas no capitalismo. É parte de superação do que têm sido a humanidade e seus valores. É parte de um total que construiremos a partir do fim da sociedade divida em classes, de opressões, de exploração.

Se por um lado, grande parte dos amigos que perdemos se vão em relações monogâmicas exclusivistas. Por razões óbvias, a monogamia combatedora da solidão e "seguradora da maior felicidade do maior amor verdadeiro e da vida compartilhada com a pessoa que mais te amará" requer a vida exclusivista, individualismo à dois. A bolha. As quatro paredes. Esta impede uma relação mais revolucionária, porque todas as suas demais relações são determinadas pela relação estabelecida com sua companheira ou seu companheiro.

Mas todas as relações monogamicas são assim? Individualistas à dois?
Em distintos niveis, sim.

Isso, eu afirmo, pela construção dessa relação monogamica. Porque é possivel que uma pessoa, por qualquer motivo do mundo, em uma determinada época, estabeleça relação sexual apenas com um companheiro. Agora, essa relação se constrói de "eu gosto só de você"? Se ela se construir de exclusismos, que para a burguesia (e somente na sua visão perturbada) a exclusividade é equivalente á amor verdadeiro, real, superior aos demais, então ela ingendará estes desvios, ainda que em niveis distintos.

A contraposição a monogamia, para superar os limites burgueses das relações, não pode ser a poligamia ou a poliandria. Não é uma questão quantitativa de pessoas que se estabelece relação sexual. Talvez fosse - sem encarar quantitativo em contra posição a qualitativo - em relações profundas. Tão pouco pode ser encarado como uma questão de forma, é exclusivamente uma questão de contéudo, que diferencia as relações revolucionárias das relações pequeno-burguesas degeneradas. A prioridade dada à quem divide e oferece prazer sexual é uma contradição que a monogamia não pode superar. É a contradição da sexualidade exclusivamente presa vida privada. É a capacidade de amar, de entregar-se, de gozar (tanto no sentido sexual quanto nos outros que nos realizam), de chorar, de dar e criar intimidade para dentro de um quarto, que depois se tornará um assunto velado. E se o sexo é feito, entre camaradas, sem uma relacionamento "tradicional" - isso é, de namoro - então deve ser esquecido. E se não puder ser esquecido, ao menos, silenciado.

Mas para analisarmos isso atualmente, peguemos como parametro o cinema, que Trotsky em Questões do Modo de Vida dizia ser uma das ferramentas mais revolucionárias que tinham sido criadas, pela sua facilidade de compreensão e grande capacidade de introzamento e divertimento. Atualmente, utilizado para expor a degenerada moral burguesa e sua realidade pouco conhecida, apesar de incentivada ao desejo de tê-la, pela classe trabalhadora. Se pegarmos os exemplos de filmes do diretor Woody Allen, onde Vick Cristina Barcelona, impacta uma juventude que é criada na visão única de relação a dois. Porém, o que é preciso se atentar é que estes filmes cumpre dois papeis importantíssimo. Em primeiro lugar, é preciso identificarmos a necessidade da burguesia em dialogar com os desejos e prazers bissexuais e por fora da relação monogamica - no caso ainda, de casamento formal, igreja e etc. A segunda é ainda mais determinante: o limite de aceitação para tais condutas.

A burguesia menos conservadora - aqui exclui-se entre estes, os fundamentalistas religiosos - expõe essas outras possibilidades de relação, com o objetivo de impor os limites. Pode. Mas só enquanto for juventude, depois é preciso crescer. E depois que crescer, é preciso achar alguém para dividir a vida eternamente. O que eu estabeleceria um paralelo, com bastante cautela, com minha crítica a Kolontai[1].

O individualismo de época que tanto na estratégia - como o autonomismo -, mas como para dentro das relações e o modo de vida precisa ser superado. Este, por si só, impõem valores anti-operário (com a divisão da classe trabalhadora) e um erro em pensar que é possivel viver isolado, não encarando o ser humano como um ser social. 
A realidade de hoje impõem o marxismo como método de análise se quisermos avançar nas transformações estruturais, isto é, o materialismo histórico e dialético é fundamental na busca por uma estratégia para vencer, capaz de derrotar a burguesia e seu regime de exploração. Porque somente assim, com o fim da desigualdade social e consequentemente a divisão de classes, que é possivel pensarmos no fim das relações utilitaristas e de posse.

É nesse momento que as relações individualistas acabam cumprindo um papel alienador. Quando a subjetividade voltada a vida privada, a vida dividida a dois, ganhe mais foco e atenção do que os acontecimentos internacionais que determinam o futuro de nossa classe (até mesmo, de continuarmos dividos em classe).

Hoje quando a juventude tem protagonizado os primeiros levantes, nos países imperialistas contra a crise, e nos países perifericos, contra os regimes, é importante ligar as questões mais intimas com a busca na história de lições e erros para não oferecer a burguesia a chance de despejar a crise sobre nossas costas e impor mais uma derrota ao proletariado. Tão somente pela traição das direções quanto por seus erros que abrem-se possibilidades para os grandes capitalistas fugirem do que os aguarda, nossa revolução.

Atenção, jovens.
Somos nós a caixa de ressonância que avisa a abertura de novos tempos. Somos nós, o prólogo que indica o despertar da classe trabalhadora após trinta anos de ideologia de fim da história, fim da classe operária e a ideia de capitalismo a de eterno.
Sejamos mais. Sejamos a aliança com a classe trabalhadora e seus fieis dirigentes que juntos colocaremos a burguesia no seu devido lugar: o passado. 
Para assim então libertarmo-nos das figuras libertárias de relacionamentos que de fundo são grandes  negócios para a burguesia. A mais libertária forma de se relacionar é, sem dúvidas, a forma capaz de permitir que o individuo se relacione constantemente consigo mesmo e com a natureza, a qual os seres humanos constrói.

As relações partem de uma outra perspectiva, que não se pode ter hoje, dentro do capitalismo, pois é uma forma de se relacionar com a vida distinta. Sem divisão de classes, sem opressão e sem termologias para regulamentarizar. Sem a ideia de sexo padrão, sem a concepção de relação de poder entre gêneros e mais importante, relações sem influencia econômica.

[1] É com muito cuidado com estabeleço essa similaridade, pois a Kolontai era uma revolucionária. Uma das mulheres mais importantes que a historia já teve que junto de outras lutadoras impulsionaram as primeiras teorias e regastes históricos sobre a sexualidade e a opressão da mulher. Mesmo assim, me esforço no combate à visão de que o amor-camaradagem (e para a burguesia, a época de "viver a vida enlouquecidamente" seja um estágio primário que tenha de ser superado. Não encaro a monogamia como sua superação, pelo contrário. Texto completo em: http://caminhodeovos.blogspot.com.br/2012/07/monogamia.html

segunda-feira, 9 de julho de 2012

Breves.

9 de Julho de 2012

Tempo para amar. 
É preciso lutar por relaçoes mais profundas. O amor exige tempo. As relações exigem uma outra educação, a classe operária e os revolucionários ainda amam pouco. Ainda vivem pouco. Ainda dizem pouco. O capitalismo nos fez e nos educou assim. Nos tirou a voz e o tempo para amar e ser amado.

Sem dúvida que sem a revolução socialista, será imposivel mudar as relações. Ou extinguir a homofobia, o racismo e o machismo. Mas ela tão pouco, sozinha, irá nos emancipar. O modo de vida têm que mudar, e precisa ser impulsionado por nós, em cada luta, em cada prática militante, em cada expressão. Desde já.
Porque é disso que nos fortaleceremos, é disso que nos moralizamos, é disso que nos torna mais coerente com o mundo e o futuro que nos pertence!


* 

Amor para muito além, amor que precisamos. 
A indiferença como parte do individualismo burguês, que pouco vê, pouco se tensiona a se preocupar, divide ainda mais a nossa classe. É pequeno burguês, mesquinho e de um tamanho desprezo, aqueles e aquelas que assumem como personalidade ou como estilo de vida, o deslexo, a falta de preocupação e consebe pra si a idéia de felicidade dentro da bolha monogamica. Não há emancipação no individualismo à dois. Também não há, no relacionamento aberto, porém não livre.

O amor ainda será muito mais do que mera relação economica. E muito além do que mera paixão destinada a posse e a repartição de vivências, conhecimento e particularidades ao companheiro a qual se tem relações sexuais.

*
Adiante.

Não confie em alguém que reduz a luta pela emancipação da humanidade, do amor-camaradagem sincero, por um novo modo de vida - comunista, por uma sexualidade mais libertária e mais satisfátoria, por uma luta "estética" e/ou "para conseguir transar".

Estes, companheiras, são - em maioria - os homens, mesmo que comunistas revolucionários, (mas infelizmente, algumas de nós também defenderam isso, por outros motivos evidentemente) que mantêm-se confortavelmente pisando sobre nossos corpos e nossa liberdade.

Não desistamos, companheiras. Nem demos a eles crédito ou voz. Porque seremos nós, e somente nós mesma, capazemos de nos emancipar.

domingo, 24 de junho de 2012

Relacionamento Aberto?

24 de Junho de 2012


Parece-me que essa discussão, quando parte daí, tem-se uma ideia pela metade. A discussão sobre abrir um relacionamento está vinculada a conceber uma nova forma de relação. Entre o casal? Talvez, seja uma nova forma de relação dos indivíduos com o mundo. Isto é, conseguir que os dois – considerando a relação aos pares, mais convencional nos dias de hoje – sejam indivíduos autônomos, não dependente um do outro, onde a relação que se constitui é livre das relações econômicas e principalmente, livre das pressões machistas, sexistas e/ou de chantagens emocionais. Livre também dessa relação determinar a vida de ambos.
                Parte na verdade de encararmos as nossas vidas como projetos individuais, não individualistas, onde busquemos relações que nos façam bem e avançar. Que possamos estabelecer uma relação de troca e não – somente – de apoio. É preciso libertar-se e libertar o outro do amor burguês entrelaçado ao ciúmes, a possessividade e ao controle corporal (e para a pequena burguesia que ao corpo não se prende, o mental).
Isso não é uma defesa de orgias, sexos sem sentimentos, relações utilitaristas e fetichistas, pelo contrário, é uma defesa por relações revolucionárias. Isto é, conceber e amadurecer a ideia de que deve-se existir uma relação de camaradagem, de companheirismo, de amizade principalmente.
A monogamia é hoje – por conta da burguesia – uma forma de se relacionar preenchida de contradições e pressões incessantes. É contrarrevolucionária por essência? Eu não acredito que seja. Mas a monogamia, aqui entende-se por uma relação onde ambos desejam ficar exclusivamente um com o outro, não sentem-se oprimidos pelas limitações ai colocadas, recusam os desejos sexuais e amorosos (isto é, as paixões, a capacidade e a experiência de novas paixões, novos romances e novos amores) para manter um relacionamento, que não necessariamente precisa de todas essas limitações.
Eu, Virginia, não defendo a monogamia. Porque para mim, a discussão não se estabelece entre relacionamento aberto ou monogâmico. Para mim, a discussão parte de quem somos. Sou travesti, sou lutadora, e meu corpo e meu sexo pertencem a mim. Nenhum companheiro meu, poderá se atrever a me reprimir. Também, obviamente o respeitarei e desde cedo apresentar-me-ei como sou. Sou livre. Sou minha. Não me contenta paixões exclusivas, não me satisfaz amores platônicos. Quando Trotsky dizia que vivemos em tempos de paixões sociais, eu concordo. Mas meu grande amor, sempre foi e será, a humanidade. Esta não é singular e não cabe em um só companheiro. E nem mesmo de sexo, é preciso para se ter essas relações. Mas é preciso liberdade. É preciso existir enquanto eu, enquanto Virginia. Me entende?

Abrir ou não abrir pouco importa.

O que somos? Qual amor que construímos? Qual amor que nos permitimos sentir? Quem são nossos companheiros? Que amor tem por nós? Viveremos em relações tão mínimas e tão nucleares por mais quanto tempo?
Eu não sou dona da razão, nem sei o que é melhor para cada um. Sei que as relações monogâmicas patriarcais burguesas e a família precisam ser extintas. Defendo, sou marxista-leninista-trotskysta. Agora, pra mim? Quero me apaixonar por todos aqueles, que se levantam e demonstram que humanos bonitos são os que lutam.

terça-feira, 8 de maio de 2012

Carta à mãe

 de Maio de 2012


Tânia,
           
Há anos venho te chamando de mãe e desde sempre viemos vivendo sem refletir mais profundamente o que é isso que chamamos de vida. Nos últimos dois anos, vivenciamos mudanças drásticas em nossas vidas, uma delas foi a perda de seu companheiro e meu pai. Sem dúvida, isso desestabilizou toda nossa família, mas também fez com que nos reestruturássemos de forma mais libertária. Sei que tenho cada vez mais me afastado de casa, e isso parece cada vez mais um problema, quando não deveria ser. O motivo de eu te escrever é uma tentativa de te mostrar como a realidade do mundo anda distorcida e pouco temos contato com ela. Primeiramente, queria explicar sobre a origem da família, que foi a aula que tive nesta sexta-feira (27/04). Os primeiros seres humanos foram completamente libertos, não havia moral, não havia instituições, nem mesmo religiões monoteístas. O que havia eram pessoas que se relacionavam entre si. As relações sexuais pouco tinham a ver com a reprodução, pois não era obvio (como de fato só se tornou graças ao avanço da ciência) esta ligação. Por muitos anos ninguém sabia como uma mulher engravidava. Essas pessoas se organizavam de uma forma distinta da nossa, as crianças chamavam de mãe todas as mulheres da aldeia e de pai todos os homens da aldeia. Isto porque todas as mulheres tinham relações sexuais com todos os homens, e a relação sexual que determinava a terminologia de parentesco.  Não havia também a compreensão de que um filho, depois que crescido, ainda era filho da mesma mãe. Isto porque, na natureza, existe um determinado tempo em que a mãe fica próxima dos filhotes e depois os abandona. Somente após essa consciência que se houve a proibição de incesto. Primeiramente, entre mães e filhos. A família então se origina da regulamentação das relações sexuais, com a proibição do incesto. É, eu sei, parece algo tão distante a ponto de se tornar surreal. Mas é importante, entendermos como a construção dos seres humanos é uma construção histórica, não divina. Isto é, apesar das religiões e das crenças individuais, existe-se uma história e uma evolução da humanidade. E onde estamos agora e como nos relacionamos com o mundo se explica por essa história e não pelas religiões que começam a explicar o mundo de hoje por hoje. E negam todo o mundo material, concreto, palpável por um mundo idealizado e que submete a vida a espera da vida após a morte.
           
A primeira forma de opressão de um homem sobre outro, foi da mulher pelo homem. Assim que o homem descobriu a  agricultura e a domesticação de animais, ele passou a precisar de terras só pra si e assim a precisar saber pra quem suas terras ficariam após sua morte. Daí, a proibição da mulher a ter relações sexuais com outros homens. Daí, o surgimento do machismo. Trazemos isso pra hoje. A relação que você estabeleceu com o Sergio foi uma relação estritamente formal. Você pouco o amou com paixão, e pouco pode viver sua vida independente e em busca do seu prazer (tanto sexual, quanto nas práticas como yoga, etc).
Esses estudos me ajudaram a entender como se construiu essa forma de organização chamada família. Que hoje, tem a forma burguesa de família. Ou seja, um casamento (na igreja e no cartório) heterossexual que tenha filhos. Mas pensando como Tânia, o que de fato te faria feliz? Quando foi que respeitaram o seu direito enquanto mulher para ter uma vida independente? O que fizeram da sua vida e o que te fizeram fazer dela? Hoje, você ainda mantem sua tripla jornada de trabalho. Trabalha na UBS, arruma a casa e ainda cuida dos dois filhos (que já não mais PRECISAM de suas atividades domésticas). Até quando a mulher quando se torna mãe terá que abrir mão de sua vida inteiramente pelos filhos e abrir mão de seu próprio corpo, de seus próprios desejos? Eu já te disse que chegou a hora de você se posicionar em frente a sua vida. Não é possível que viva sua vida inteira em função dos outros, sem aproveitar a suas próprias capacidades e sensibilidades.
Uma vez estabelecido essa relação entre você e a sua posição social na família dentro do sistema capitalista, é preciso entender qual o papel da mulher nessa sociedade. As mulheres não tem qualquer visibilidade  a  não ser as brancas, magras e ricas. Este padrão completamente burguês nos pressiona a não aceitarmos nosso corpo, a alisarmos nossos cabelos e a buscar emagrecer de formas anti naturais. Vivemos nós de formas anti naturais, dormimos menos do que gostamos, passamos a vida toda trabalhando em atividades que não escolhemos, não temos educação gratuita e de qualidade para todos, não temos saúde como um direito garantido, não temos direito de explorar nossa consciência e nosso corpo com avanços da tecnologia, seja com substancias legais/ilegais seja com o conhecimento cientifico que é restrito aos ricos.

Chegou a hora de mudarmos nosso estilo de vida!
Sinceramente, eu me sinto muito fragilizado em retornar para a casa dia sim, dia não, e perceber que ainda se vive dessa forma. É dentro do partido político que encontro uma contra pressão a me adaptar a esse mundo doente que faz com que os seres humanos vivam de forma tão anti natural que tenham medo da morte. Que não entendam o mundo tal como ele. Que sejam levados por mitos e pré-conceitos, que uma mulher ria de outra na televisão sem perceber que está se oprimindo ao fazer isso. Porque somos nós, as mulheres, os homossexuais e os negros que sofrem essas opressões diariamente.
Existem pessoas conscientes que fazem com que vivemos alienados. Achando que a vida das novelas de fato existe e que a sociedade não é divida em classes. A única forma de nos emanciparmos, de mudarmos o mundo, é adquirindo consciência de que este mundo em que vivemos é doente e é possível muda-lo. Assim como a história da humanidade foi transformada sempre, há hoje uma abertura revolucionária de mudarmos o rumo da história de uma vez por todas. Para que os seres humanos saiam da pré-história e possam finalmente viver livres dessas opressões. Vivam fora de um sistema que veja a vida como mercadoria. Que as futuras gerações possam viver intensamente e não perder tempo em serviços que de nada acrescentam os seres humanos e são exercidos pela classe trabalhadora pela deseducação dada a nós pela burguesia, como são os garis, como são as empregadas domesticas, que são trabalhadores dignos que ocupam cargos que poderiam ser superados se cada um fosse autossuficiente e conseguisse no mínimo se manter.
Sei que na concepção de mundo que tínhamos, eu abandonei a família e fui viver por ai, mundo a fora. Mas o esforço que hoje faço é para mostrar como essa concepção é criada para controlar nossas vidas e nos submetermos ao limite de consciência e de prazer. Eu desejo para você, Tânia, uma vida plena. Não como mãe, esposa ou qualquer outro papel que apenas sirva. Mas como mulher, como ser humano, como individuo, que seja capaz de agir e refletir a vida a partir de si mesma. Eu desejo que sua existência seja plena e seja vivida intensamente. Desejo que você rompa os padrões da sociedade para poder sentir novas experiências e não se sujeitar as opressões e as depressões causadas pela sede de lucro dos grandes empresários que produzem as propagandas, os novos produtos que consumimos sem necessidade, das novelas e dos padrões de beleza (tanto que queremos ser, como que desejamos).
No fim, escrevo pra dizer que te amo. Mas diferentemente da forma com que os filhos amam as mães. Porque não te amo por termos sido ligados socialmente, te amo pelo esforço infinito que você fez em ser o que se tornou. E vejo que os limites e as opressões que você exerce são criadas pela superestrutura, não por vontade sua. Sair de casa é dar um passo a frente da nossa libertação de conjunto. Tanto em você se responsabilizar menos por mim e ter mais tempo pra si, para até mesmo redescobrir o que é ser Tânia e o que é que você gosta. Quanto para que só reste nosso amor e não mais essa relação estabelecida pela sociedade  capitalista. Até porque, a maioria dos filhos amam suas mães,  mas não as mulheres que estão através desse papel social. Não quero que você se sujeite a cuidar da casa e preparar minha comida, quero que você se coloque no papel de viver sua vida e se realizar enquanto ainda está viva.
Sei que também fui pouco paciente contigo em toda essa transição. Sempre fui de jogar as bombas, as verdades e fui pouco sensível para entender o quão difícil também era pra ti. Também foi difícil pra mim, até hoje é. Porque a busca por entender o que sou e o que almejo ser é uma busca cheia de contradições. Há um certo tempo, queria ser mais aberto com você e somente agora consegui acertar minha cabeça para poder escrever esta carta e me propor a encarar a situação. Sempre gostei de homens, e hoje é mais claro ainda como isso não é uma escolha, mas sim uma construção social que me limita a não me relacionar com mulheres também. Precisamos entender e começar a encarar nossos corpos sem pudores, mas como indivíduos capazes de nos proporcionar prazeres. Sejam eles voltados ao carinho, ao abraço, o consolo, o companheirismo, sejam eles ao prazer sexual, o beijo, ou mesmo os dois. Além disso, ultimamente comecei a me libertar de uma sensação que tive que esconder de mim mesmo por um bom tempo. A opressão que a sociedade me oferece por me colocar contra a maré, é concreta. Na escola eu senti isso, na rua eu sinto isso, nos âmbitos sociais e até mesmo dentro de casa. Ser homossexual é ser diferente. É viver numa miséria sexual (sobre esse assunto já escrevi outros textos que podem ajudar melhor na compreensão da minha construção sexual e comportamental). Na verdade, foi difícil pra ambos aceitarmos a sociedade que vivemos. E isso fez com que eu não fosse sensível com os seus limites e você não fosse com os meus.
Tem dois vestidos no meu quarto, que são meus. Comprei os dois nesses últimos meses, porque sempre quis usá-los. E faça o esforço de pensar comigo: qual o problema de eu utilizar uma roupa curta? Faça o esforço de esquecer que há uma divisão de gêneros, que nem sempre houve, que há roupa masculina e feminina, e se pergunte porque que é errado ou ruim que nós ultrapassemos “os lugares determinados para nós”? Sou contra aceitarmos quietos que podemos ou devemos fazer isso. Defendo que sejamos livres e possamos utilizar o que nos agrada. Eu me sinto bem de vestido, eu me sinto bem de maquiagem e isso não tem nada a ver com a minha orientação sexual, nem mesmo com aceitar meu corpo. Gosto de ter um pênis, gosto da minha barba, mas gosto também de tudo isso e não vejo razão para negar a maquiagem ou essas roupas.
Quero me abrir e quero que você se abra enquanto Tânia. Quero que avancemos no que conhecemos um do outro. Quero que sejamos honestos e que sejamos inteiros e não restos.

Com todo amor que há neste mundo,
Do seu grande companheiro e amigo,

Ces.

Relações

8 de Maio de 2012

Quando discutimos as relações tentamos separar as sexuais das demais relações que nos penetram tanto mais do que as relações sexuais que não precisam de qualquer penetração para existir, basta o toque. Não sei desde quando, até porque não me lembro um dia em que não tentei entender meu corpo e minha sexualidade. Foram sem dúvidas, as condições objetivas que me fizeram trotskysta e militante revolucionário. Se as relações amorosas são aquelas que se tem amor, não podem ser descritas apenas para relações a dois, o namoro monogamico que individualiza dois de uma só vez. É nessa ilusão que os solteiros - porque há nome dado a nós também, e dizer nós, parece pra muitos uma vergonha - não tem com quem se relacionar, eu me coloco (ou deveria, ao menos).
Pensamos nós em uma política independente para a nossa própria sexualidade e nossas relações afetivas? Somos individuos e não podemos abandonar nossas especificidades e nossas necessidades individuais por qualquer outro individuo, não pertencemos a ninguém, nem nosso corpo (pênis, vagina, cerebro ou coração). Pertencemos únicamente a nossa época e as nossas atitudes, que as minhas estão entregues a revolução; E não é um discurso vazio de uma revolução abstrata, que tende a ser boa, mas uma mudança radical da sociedade que consiga a emancipar a humanidade de toda a opressão que nos faz tornar e nos tornarmos meros objetos.

A maioria das minhas relações sexuais são impulsionadas pela miséria sexual objetiva de meus parceiros e a minha. Sou ali uma valvula de escape para a vida omitida de tantos homens e no entanto, procuro quase sempre aqueles que não se atrem por mim, porque meu tesão foi construido como de uma mulher. Sou heteronormatizado da cabeça aos pés. Mas isso não é a resposta para minhas roupas e esmaltes, batons e tantas outras tintas coloridas que utilizo. Meu genero e minha sexualidade, apesar de unificados pelo capitalismo, são extremamente separadas. Pena eu não ter autonomia e liberdade para escolher por mim, sem influência da repressão e dos valores cristãos que a sociedade capitalista me bombardeia.

Sou mulher, de tantas formas, mas não biologica. Sou homem por outras, mas torne-se embaçado quando tento entender o quanto tem de querer ser e querer compartilhar com alguém. Por isso, me é certo que construiram minha sexualidade, porque eu não a escolhi. Porque jamais recusaria compartilhar minha vida com alguém pelo seu gênero, pela sua biologia.

Meu sexo é vergonhoso. É desesperado. É asfixiado.
Por mais que eu tente me recompor, eu não consigo me indentificar como individuo pleno. Sou arremeçado a cada golpe de desinteresse que meu corpo traz aos heterossexuais que se posicionam assim de nascença. Ao padrão que eu não sou e mesmo assim, como Virginia ouvia e depois escrevia, as vozes dizem que é bonito. Essas vozes - sociais - que nos deixam ezquisofrenicos e nos causam mortes, tantas mortes quanto as políticas quanto as físicas. Perdemos a cada dia tanto mais, por não sermos capazes de dizer.

- Estou em crise.