sábado, 30 de abril de 2016
Vamos falar do tesão sobre as travestis?
sexta-feira, 29 de abril de 2016
Silêncio
Apesar de muda
Os olhares mudaram
E quando fechados
O toque acalma a alma
Já encontro beleza no riso
E a certeza de querer um beijo
Fora de hora
Fora da cama
Ainda que seja um risco
Não chegamos aqui pela paixão
Disse tantas vezes, que quase acreditei que fosse impossível
Conservadora eu, que ridículo
Te gosto enquanto amigo
Porque não ser sincera contigo?
Medo de mudar
De você também não dizer
Como hoje não te digo
Te engano então
Pra manter sigilo
Pareço louca
Porque sou
Mas não queria repetir a cena
Nem de ser rejeitada
Nem de dizer que estou pensando essa parada
Mas resisti até hoje à este charme
Meu orgulho achava ultraje
Dizer que te quero nos dias comuns
Sem desculpa ou pretexto
Deitar no teu peito
E sentir-me dona de mim
Ao lado de meu companheiro
Tocado pela transfobia divina
Outono chegou atrasado, mas derrubou a temperatura com toda força. No ponto de ônibus era difícil esperar o ônibus com tantos ventos amargamente frios que me cortavam o rosto. O coração estava estável, há pouco rachado, agora já não querendo muita conversa ou aventura. Meu cabelo solto, armado (para o combate), vermelho fogo chamava atenção. Me cobria as orelhas e também parte do rosto e isso me fazia feliz, já com o pouco que me aquecia. Meus olhos, apesar de recém acordados depois de uma longa viagem, estavam atentos a cada ônibus que chegavam. Todos passavam, menos o que me levaria ao meu destino. Inferno!
Foi quando reparei, bem ao meu lado encostava um menino jovem, com seus 23 talvez 24 anos. Meus olhos então deixaram os ônibus que vinham de minuto a minuto e se divertiram ali, naquele rosto, no charme do frio que trazia certo mistério e curiosidade sobre este rapaz. Algumas pessoas passavam me encarando, desta vez, parecia que meu cabelo chamava mais atenção do que eu ser trans, por um ou outro motivo, me orgulhava e os olhares, já tão comuns e cotidianos, não me provocavam nenhum sentimento. Era nada além do costume. Ele então expressava alguma reação, nos distintos olhares que me cercavam. De repente ele também me olhava e isso me deixava inconfortavelmente alegre. Também não lhe tirava os olhos.
Ele então respirou fundo e se dirigiu a mim. "posso te falar uma coisa?". Meu coração acelerava, enquanto minha mente pensava " pode me falar o que quiser", ri pra mim mesma. Em fração de segundos, reparava no seu lábio e de quanto ele estava longe, no seu cabelo e o preto dos fios e seu par de olhos que me olhavam de forma tranquila. Respondi, claro.
"Eu não podia deixar de dizer que Jesus tocou meu coração pra te trazer a palavra dele, que te ama INDEPENDENTE DO QUE VOCÊ FAÇA OU SEJA".
Silêncio em todo meu corpo. Que chatice! Nao é a primeira vez que um " bom cristão " vem me pregar que mesmo sendo travesti (e sempre é este tom de "apesar do seu pecado/doença/escolha/quem você é, etc") Jesus te ama. Respondi educadamente "Ok". Mas ele insistiu em continuar, desta vez - como o foi mais mascarado da primeira - tocado pela transfobia, me perguntou "Qual seu nome?". Nesse momento já havia perdido qualquer interesse em seguir aquela conversa, mas respondi " Virgínia ", ele então repetiu a pergunta " Mas qual seu nome DE VERDADE?". Meu coração parou, o frio passou numa fração de segundo e a raiva me tomou o corpo. Respondi prontamente "Este é meu nome de verdade", bravamente contra seu desrespeito. Ele disse, contragosto, " vou rezar por você ". E voltou ao seu estado anterior, afastando-se, mas ainda ao meu lado, aguardando o ônibus.
Não pensei duas vezes, sentindo o desprezo mascarado de piedade - que não mereço! - disse " posso te perguntar uma coisa?". Seus olhos brilhavam quando me olhavam, pensando que talvez suas palavras tivessem tocado meu coração a ponto de aceitar Jesus e a palhaçada toda que ele me dizia. Ajeitei meu tom de voz, e perguntei "E você, namora?" e dei uma risadinha provocativa. Queria ter encarnado o próprio exu só pra comprovar que entre Jesus e essa transfobia mascarada, eu era orgulhosamente travesti e ateia. Ele precisava de algum tempo, ar ou talvez um buraco para enfiar a cara para tamanha surpresa. Um letreiro aparecia sob sua cabeça, como naqueles gibis, "UM traveco me dando ideia?", ele riu desconcertado. "Namoro com Jesus?" (Pasmem! O oco era viado, platônico e daqueles de amigos imaginários). "Só com ele?", perguntei. Ele disse "Sim, ele está preparando um lindo casamento pra nós ". To chocada! Não resisti:
- Veado, além de monogâmico, você caiu nesse papinho? Jesus diz 'Eu te amo' pra todas! Mas tá pra voltar há 2016 anos e nada, vai te deixar esperando no altar!
A cara fechou. Não sabia mais o que dizer. Meu ônibus passou, dei uma risadinha e caminhei alguns passos a frente para adentrar o ônibus, cheio. Na escada para subir, me virei e gritei " Ei! O demônio também me tocou e disse que vai comer seu cu hoje a noite!". O ônibus saiu, a porta fechou, e o boy com o rosto vermelho, do vento e da vergonha, foram de distanciando. Eu hen!
Vamos falar sobre o pau das travestis?
Barba, pelos e desejos
Roça a barba, a coxa, os lábios
Meu pescoço é um descalabro
Me traz suspiros,
diz no meu ouvido
"Calma" - cínico!
Me provoca e eu sou delírio
Outono começou intenso
Me instiga desejo
Mas não me rendo
Ao teu charme
Talvez só nesse momento
Te beijo
Me seguro, mas não me aguento
Que beijo!
Coloco sua mão no meu peito
Você leva jeito
Pra me enlouquecer
terça-feira, 26 de abril de 2016
Um gosto contraditório de ser quem não se pode ser
Há quase um ano, estava com o coração explodindo quando entrava no consultório trans (CRT - Santa Cruz) para passar com a endocrinologista e conseguir meus primeiros hormônios. Escrevi uma pequena crônica para dizer quão feliz eu estava, mas quão contraditório era todo esse procedimento. De lá pra cá, vivi uma montanha russa de emoções, medos, inseguranças e dilemas sobre minha identidade de gênero. Algumas conquistas, e de contra partida mais humilhações e instabilidade.
Hoje me ligaram do ambulatório para dizer que eu que estava na fila desde 2013 para o atendimento psicológico (isto é, processo obrigatório para atestar em laudo meu Código Internacional de Doença e poder iniciar o tratamento hormonal), finalmente havia conseguido uma vaga. A sorte que há um ano já havia conseguido uma psicóloga da Unidade Básica de Saúde que não me atestou como doente mental, mas como "indivíduo livre para se desenvolver socialmente com o gênero que me identifico". Assim dei início a minha hormonização, mas todos esses anos a falta de um tratamento psicológico efetivo custava caro. As dificuldades de me expor e ser sincera com medo disso permitir algum possível veto a seguir este tratamento, influenciou muito e me fez voltar a escrever (e a respirar).
Nos primeiros dias, eram "pílulas mágicas", não poderiam mudar absolutamente nada, mas a sensação era que estava dando um passo a frente. Decisão difícil, se submeter a hormônios que nas bulas nada mencionavam a minha existência, pelo contrário, reafirmavam os corpos da mulheres cis. Nos primeiros meses, meu peito se tornou muito sensível, descer as escadas eram a dolorosa felicidade de "algo ali se mexer". Mas já na próxima consulta, quatro meses depois, a "segurança" que buscava em fazer acompanhamento da minha harmonização caiu por terra. Uma semana antes da consulta meus comprimidos acabaram, e o que começava a se desenvolver, retrocedeu. Quando cheguei na endocrinologista, os exames estavam ótimos, mas os hormônios estavam em falta. Então, foi receitado outro, que eu deveria comprar por conta própria. Comecei então a comprar na farmácia e junto a isso, ver que além da ausência de estudos profundos sobre nossa saúde e a precária situação que temos de sobrevivência, no próprio ambulatório voltado as pessoas trans, nada é tão diferente assim. Não havia uma "continuidade obrigatória" da medicação, mas em um ano, houve três pílulas de hormônios femininos diferentes.
Com o passar dos meses, meu corpo começava a ter mais hormônios femininos do que masculinos, graças ao bloqueador de testosterona que tomava junto aos hormônios femininos. Meu corpo entrava numa ebulição, TRANS-formando-se. Até que no dia 07 de Junho de 2015 explodi. Meu corpo cada dia mais exigia mais mudanças, menos paciência comigo mesma e uma solidão que atingia a alma elevada a vigésima potência. Vim do trabalho pra casa chorando, estava só. Acendi um, dois, três cigarros e o choro engolia minha falta de palavras. No fundo, sabia que não adianta gritar, nem explicar o que sentia. Meu corpo e minha mente estavam sendo esmagados pelos padrões que nunca iria me encaixar, uma pressão cisnormativa de como era vista e o quanto ainda faltava "pra ser mulher de verdade". Não adiantava. O choro não iria embora, a não ser que eu fosse primeiro. Não me esqueço da canção de rap que se repetia, sem pausa, misturada com meus soluções e dificuldade de respirar. Até quando poderia aguentar está situação? Era estar nua o tempo todo, e as risadas sobre o meu corpo ensurdecendo meus ouvidos. Eram já centenas de mulheres trans que tinham sido vencidas por essa sociedade transfobica e capitalista que destrói nossos corações e nossas potencialidades de realmente sermos. Era a luta com meu corpo como campo de batalha que o risco de não aguentar, de sucumbir à dor e a falta de esperança, me marcava e ficará pra sempre.
Me doia ser tão consciente do mundo que vivo e saber que ser revolucionária não diminuía em nada a dor que sentia. Sim, as respostas que dei e sigo dando apontam pra minha emancipação, pra luta revolucionária, para combater na política e na vida, a miséria das relações e também da ideologia que nos quer amedrontar e fazer desistir. Mas não parou de doer, um segundo que fosse.
Desci as escadas, o rosto inchado, os hormônios eram uma parte do que me fragilizava, o mundo tal como é, era todo o resto. Os comprimidos criaram em mim uma sensibilidade tão própria deste momento de me construir como sou, que não me servia mais as armaduras, nem a própria anulação de mim mesma, precisava encarar de frente e não me sentia pronta pra isso. Lembro de tomar o resto de uma cachaça que estava há tempos no congelador e não lembro mais quando ao certo apaguei daquele pesadelo.
No dia seguinte, eu estava muda. Já não me sentia parte de nada e justamente pela minha subjetividade não era capaz ou não valia a pena tentar reproduzir tudo o que estava na minha cabeça. Era uma bagunça que mesmo hoje ainda não saberia explicar. Era explosão, tudo em cacos. Aquele momento onde parece que todo o peso de ser quem se é numa sociedade que nada se pode ser, me deixava presa ao chão, sem poder me levantar. Nada me interessava, até porque nada mudaria a situação de se sentir um monstro aos olhos alheios, uma mutação de algo que não está de um lado (homem) e nem do outro (mulher).
Os dias passavam, e o vazio não me deixava. Encontrei um moço que me deu algumas borboletas no estômago e sorria enquanto me olhavam nos olhos. Meu corpo, pela primeira vez, em contra dos hormônios que cada vez mais castravam minha sexualidade e meu libido, queria se entregar a ele. E me entreguei. De cabeça, e de corpo também. Comecei então a me formar em poesia, e a cada batida que meu coração dava, escrevia uma nova. Pela primeira vez, me sentia bem com outra pessoa e queria realmente te-la por perto. Ele, ainda menino, não entendia nada do que eu estava passando e depois descobriria que não se importava, mas em cada beijo ou toque que passava pelo meu corpo, provocava um alívio e uma felicidade de superar o mito de que nunca poderia encontrar alguém. Escrevia poesias, em papel e no corpo dele, com lápis e com minha língua. Era um momento que me libertava e me sentia corajosa de estar vivendo algo assim. Os poucos abraços e mesmo o silêncio que sempre existiu entre nós, me preenchiam, acostumada com a miséria do capitalismo, achava que já era muito. Era intenso. E mesmo ouvindo de que era melhor não gostar tanto assim, não podia ser de outra forma. Ele era doce e ao mesmo tempo com quem eu mais queria dividir meus pensamentos. Mas era pesado demais e por vezes me convenci de não falar. Então, era mais poesia.
Nos primeiros dias que saímos, sentia o peso da cisnormatividade. Em cada ação e em cada momento me preocupava como ele me via, ainda que eu não conseguia perguntar, por medo das respostas. O sexo apesar de muito bom, começava também a expressar estas pressões. A minha relação comigo mesma, havia mudado muito com a castração química, e pouco conseguia me masturbar ou me sentir bem com essas mudanças. Com os meses, perdia não apenas o libido mas a intensidade até no fim o próprio gozo. Estar com ele também era difícil, porque no sexo, uma parte de mim ele ignorava. Tentei evitar. Porque abrir qualquer discussão significava colocar todo este debate, eu sei... Me colocar por inteira, e isto colocava tudo em risco. Já que num país tão hipócrita, as pessoas conseguem fingir descaradamente que "se confundiu" ou "não sabia" que somos trans, talvez para estar com ele, precisaria ser sempre metade. Mas isso só comprovava que não existia espaço para ter uma relação, pois mesmo estando juntos, mesmo enquanto ele ainda não via mais ninguém, eu sempre seria a "outra", enquanto ele espera por alguém. Ele dizia que gostaria de namorar, mas eu não era uma opção. Nunca me fez um elogio e mesmo dizendo que tinha um jeito especial de gostar de mim, e acredito que houvesse mesmo, não era o bastante para equilibrar o peso de estar ao meu lado.
Os riscos me davam calafrios, mas não poderia construir uma relação que também não fosse sincera, então melhor seria jogar tudo pro ar, do que chegar até aqui e desistir de quem eu sou. Ele não entendia e eu mal poderia me explicar. Ele disse "não acho que seja uma questão de atraso, mas de não querer mesmo" e partiu meu coração como tantas outras vezes que faria depois.
Numa dessas tardes, de altos e baixos, meu corpo novamente era o centro dos meus medos. Ele me deixaria pelo meu corpo? Ele esperaria os resultados? Mais que isso, eu consigo esperar mais por resultados? Corri, desci ate a farmácia e comprei uma Perlutan, hormônio injetável - o mais utilizado e contra indicado pelas travestis. Minha médica do CRT já havia dito, incansáveis vezes, que era contra o uso desse hormônio. Mas os que me davam, no que adiantavam? É o desespero que me tomava conta, comprei o hormônio, mas não queriam me aplicar sem receita. Grande dilema! Procurei duas outras farmácias e todas se recusavam. Entrei numa última, pedi então a seringa e senão fosse por eles, eu mesma aplicaria. E lá, me aplicaram (e aplicam até hoje). Decidi então, tomar por conta meus hormônios e invés de seguir no SUS sem medicamentos e sem coragem de contar as médicas que havia decidido pelo meu corpo e qual hormônio iria tomar. O problema é que além dessa médica não conseguia passar em qualquer outro médico, porque não entendem meu corpo e constantemente não conseguem respeitar minha identidade de gênero. Chorava sozinha, tantas vezes, só querendo entender o que dizia meu corpo, o que estava mudando, no que me transformava.
Nos encontramos, eu e o boy, mais algumas vezes e de agosto até janeiro essas idas e vindas instigaram meu corpo e contribuíam para mais crises de quem eu era e de como lutar para ter minha identidade de gênero orgulhosa, pois a cada dia, a vergonha e os ataques vinham mais fortes. Chegava a desejar ser outra só para ele poder me querer por inteira. Só pra ter a chance dele também gostar de mim. Com muita coragem, ainda nua, deitada no seu peito, perguntei a ele, se via que meu corpo mudava, meu seios cresciam... Tremia, enquanto olhava pra ele, esperava uma resposta. Mas não houve mais que um sim timido, percebia então que ele não poderia ser uma muleta, era um indivíduo que também queria ser livre. Não o culpo, e aprendi a deixá-lo ir. Ainda que levasse consigo a segurança sob meu corpo e meus desejos já não reprimidos.
Depois já com o Perlutan e uma bomba quinzenal de hormônios no meu organismo decidi parar de fumar. Os altos índices de trombose, de outros problemas de saúde, me faziam refletir como revolucionária que precisava sobreviver mais do que os 35 anos previstos para as travestis. Mas abrir mão do cigarro, era abrir mão do minha única companhia permanente e anesteciante. Parei dois meses, do fim de novembro a fevereiro quando outra crise viria.
No fim do ano, acordei cedo e fiquei numa fila para um objetivo incerto. Precisava dar os primeiros passos para mudar definitivamente meu nome. Já não me cabiam mais conviver com "César Augusto" em meus documentos. Não existia mais aquela pessoa e não me trazia boas sensações ter de me explicar todas as vezes que apresentava o documento. Não era sobre vergonha do passado, tampouco querer disfarçar que sou trans, mas uma luta para o Estado reconhecer minha identidade. Demorou muito, mas consegui uma advogada. Conversamos, e ela muito educada se mostrou interessada em defender meu caso. Entramos com o processo e sem data de previsão, torcia para mudar meu nome antes de morrer, pelo menos ter meu nome respeitada na lápide. Então, um mês depois, surpreendentemente, vejo a notícia, meus olhos desciam acompanhando o veredito no ritmo que se encheram de lágrimas enquanto eu lia. Finalmente, estava o Estado reconhecendo minha identidade? Estava dando outro grande passo na minha e dessa vez era definitivo, não poderiam arrancar de mim. Não poderiam mais me chamar por um nome que não me pertence.
Na mesma semana, me organizei pra ler os documentos pensando que inclusive pela agilidade do processo e por ter um laudo não patologizante poderia contribuir com tantas outras trans que precisam deste direito e não conseguem acessa-lo. Mais decepção impossível. A sentença era mentirosa, se baseava em documentos que não tinha apresentado (como passar em psiquiatra que nunca passei) e formulações bizarras como "o transsexualismo se da a partir de uma anomalia no sistema nervoso central". Oi? Que Estado hipócrita! E para piorar, aceitaram mudar meu nome, mas insistem em manter o gênero masculino. Não reconhecem, nem por um segundo, nosso direito a identidade de gênero. Que somos o que queremos ser.
Um gosto amargo, das humilhações e da contrapartida das vitórias parciais. Não me arrependo nem de quem sou, nem das paixões, nem dos enfrentamentos diários. E me sinto muito mais forte hoje. Sou uma revolucionária e minha vida é guiada por problemas sociais, pela histórica tristeza da humanidade que é ter sua essência roubada por este sistema capitalista. Todavia, não sinto menos o peso de ser travesti, não dói menos. A força está em saber transformar, quando possível, esta dor em ódio. E para cada obstáculo que nos impõem, resgatar Stonewall. Se Marsha enfrentou a polícia e disse " nenhum orgulho para alguns, sem liberdade para todos", eu sou apenas uma aprendiz. Mas vou crescer.
Meu corpo, meu campo de batalha: uma pequena conquista pra quem sonha com a emancipação
Quatro dias sem fumar, em vez de fumar um cigarro atrás do outro, como seria de costume quando fico nervosa. Quase enlouquecendo. A cada dia que passava, riscava em minha agenda e cronometrava as horas que ainda faltavam. Tentava me convencer a não ser tão esperançosa, pois outras consultas médicas já haviam me desapontado com a longa espera para receber legitimamente meu tratamento hormonal.
Em dezembro de 2013, passei na primeira consulta médica no Ambulatório de Travestis e Transexuais, na Santa Cruz. Um dos dois únicos lugares de São Paulo que possuem tratamento hormonal especializado e onde pode-se encaminhar também para a realização da "famosa" (e tão curiosa) cirurgia para homens e mulheres trans sentirem-se mais confortáveis, mais felizes, ou em alguns casos não deprimidas com seus corpos.
Todos os dias que esperei por este tratamento, vi de frente os avanços e contradições do sistema público de saúde para com as pessoas trans. Afinal, trabalho na saúde e tive de fazer diversos acompanhamentos com clínico geral, psicóloga e endocrinologista. Construção, como é minha identidade - e não é todos assim? De acordo com a vida, do que nos foi ensinado, do que nos foi apresentado, do que nos foi permitido e de como nos relacionamos com o mundo afora de nós mesmas? -, fui conhecendo cada vez mais sobre mim mesma e sobre o que é ser uma travesti na sociedade capitalista, no Brasil, em São Paulo, e inclusive trabalhando na saúde pública.
Mas, então, finalmente foi nessa segunda-feira. Fui trabalhar às 7 horas da manhã e o relógio parecia não acelerar o tempo para obter a resposta. No meu armário estava o Parecer Psicológico necessário para conseguir uma autorização e as prescrições médicas para começar o tratamento hormonal.
Fiquei pensando se agora seria a minha vez de poder efetivamente construir meu corpo de acordo com quem eu sou e quero ser. Há um ano consegui meu nome social no Crachá do trabalho e hoje todos os funcionários reconhecem minha identidade, ainda que na justiça ainda não tenha dado nem os primeiros passos para a mudança de nome. Sem dúvidas, esse direito básico de ter um trabalho registrado e poder ser eu mesma nele é um ponto fora da curva da situação da maioria das travestis.
Ao me encontrar com uma psicóloga uma vez por semana, como etapa necessária para conseguir a autorização médica e começar o tratamento hormonal, tive muita dificuldade de confiar na nela, mesmo ela me dizendo que não estava ali para me autorizar ou desautorizar, para "investigar" ou padronizar minha identidade. Numa sociedade tão opressora, conseguir uma psicóloga que enxergue estas consultas como um atendimento à minha saúde em vez de uma maneira de policiar meu corpo e minha identidade, ao invés de me desmoralizar ainda mais colaborando com as ofensas e desprezos diários ou, na "melhor das hipoteses", me encaminhando para o tratamento como medida para "curar", "tratar", "resolver" a minha disforia, como chamam, ou o "transtorno" como diz a Organização Mundial de Saúde (OMS). Foi difícil confiar na minha psicóloga, porque mesmo ela sendo tão rara na psicologia quanto eu no mundo do trabalho, ainda me sentia algemada a ela, por imposição.
Quando terminei de almoçar, vi que estava no horário. Avisei minhas colegas de trabalho que iria na consulta e, uma delas, Rosana, grande amiga minha, me deu um abraço e me desejou boa sorte. Fui. Corria e meu coração explodia, o ônibus era lento demais, o metrô muito quieto e a insegurança de qual seria a resposta hoje já me dava calafrios. Vão me negar por mais quanto tempo? Podem eles decidir por mim sobre meu corpo? A longa espera expulsou quantas travestis e transexuais da segurança na hormonização com acompanhamento médico? Os resultados de tomar por conta própria, do uso do silicone industrial poderão ser revertidos? São apenas 35 anos que esperam que sobrevivamos, no submundo.
Passei pela recepção, entreguei minha carteirinha. "Sala 17, só depositar a ficha". Sentei. Me levantei e bebi água. Sentei novamente. Nada... Mais espera. Tanto tempo esperando e aqueles minutos pareciam ser todos estes dois anos."Virgínia?" disse a médica endocrinologista ao meu lado. "Sim" respondi, enquanto me levantava e controlava meu coração para não sair pela boca.
Nos sentamos na sala médica. Ela buscou os exames correspondentes aos 11 tubos de sangue que tirei no mês passado especialmente para esta consulta. "Está tudo em ordem". Pediu para ler o Parecer Psicológico, o entreguei com orgulho. Neste Parecer, diferentemente dos que via na internet, não constava o CID (Código Internacional de Doenças, no qual somos representadas no CID 10, F-64 como Travesti-Bivalente, Transexualismo, entre outros). Pelo contrário, segundo as palavras de minha psicóloga: "Como condição humana estamos em constante transformação, e nessa metamorfose vamos nos fazendo a cada expressão e escolhas que realizamos (...) e nessa condição, Virginia vem realizando seu modo de ser no mundo, construindo a cada experiência seu existir que não se limite somente a sua sexualidade e muito menos a sexualidade cristalizada dos padrões de normalidade colocados socialmente".
Esse simples texto era quase uma história de contos de fadas, uma vez que meus amigos e amigas já receberam as piores palavras para descrever suas identidades. Nada de liberdade, nada de construção, nada de direitos, mas ofensas, menosprezo e patologização marcavam as tristes cartas que garantiam a continuidade do tratamento hormonal, enquanto invisibilizavam os indivíduos e oprimia suas identidades por trás daquela folha, que nunca poderia descrevê-los.
"Virgínia, você precisa assinar este termo de responsabilidade, declarando ciência sobre todas as transformações reversíveis e irreversíveis em seu corpo. Sabendo das possibilidade de resultados indesejados e que sua identidade de gênero não começa a partir do tratamento hormonal". Sorri. Li atenciosamente, afinal, a minha saúde era o motivo de estar fazendo este acompanhamento. Perguntei sobre o uso de álcool, cigarro junto as medicações, quais atenções eu deveria ter para saber se havia algo de errado com a resposta de meu organismo. Assinei, sorri de novo. Não me aguentava em mim. Finalmente, com 22 anos vou dar início a algo que quero desesperadamente desde os 18. E que poderia ter desejado ainda antes, se não fosse ideologicamente bombardeada por uma ideia que não controlava meu próprio destino, não construía minha própria identidade e não havia nada além do sistema binário de homens (cis) e mulheres (cis).
"Esperar não valeu a pena?" Minha mãe me perguntou, naquela noite. É claro que o tempo, para nós duas, nos mostrou a melhor solução desde que saí de casa e pudéssemos reconstruir uma relação entre nós. "Esperar para viver algo que já decidi, esperar pela saúde disponibilizar apenas dois locais especializados invés de todos os hospitais tratarem isso como uma questão de saúde, esperar enquanto milhares de nós não podem esperar, enquanto milhares de nós - e era esse um dos meus maiores medos - morre pelas mãos da transfobia estrutural sem ter conseguido ser de espírito e corpo o que queria. Não foi o tempo ou a espera que fez isto valer. Foram todos meus amigos e camaradas que estiveram ao meu lado, foram as conversas, o choro compartilhado, a agonia dividida, mas principalmente foi conhecer a história de lutadores como Zumbi dos Palmares, Rosa Luxemburgo, foi conhecer a história dos oprimidos que nunca desistiram, nunca se curvaram, nunca se envergonharam de serem os insurrectos que colocariam abaixo toda a forma de opressão. É minha fé convicta na revolução e nos trabalhadores que ergueu minha cabeça, moveu meu corpo e preencheu meu peito tantos dias e noites para não apenas me enxergar sozinha, mas ver que para além de trans, sou uma trabalhadora, sou uma revolucionária".
Naquela noite, mesmo com meu peito preenchido e a felicidade me contemplando, dormi com um gosto estranho, uma contradição já me assombrava. A conquista dos hormônios não garantiria de nenhuma forma minha emancipação, muito menos tornava mais livre minha construção da identidade de gênero. A transfobia aumentaria? Então, meu ódio também. A violência deste um ano e meio de espera, e os caminhos que pude desviar que agridem tantas travestis e todas as identidades que não seguem o padrão cisnormativo não se apaga com essa mudança. O Estado segue responsável pela violência que sofremos da mesma maneira que pela nossa falta de direitos básicos.

